Querido Aldo...


Lúcia Peixoto*...




Aldo querido…

Hoje acordei cedo… depois de algumas torradas integral e um café meio amargo (Sentindo um certo pesar pela diabetes descompensada) Sentei-me ao sol e segui “Rumo à Estação Catanduva”… Que viagem professor!


Ao fechar o livro que gentilmente me enviaste pelo correio (e que minha cachorra quase devorou) Senti uma vontade enorme de abraça-lo (Abraço verdadeiramente fraterno).


Te abraço com palavras, Gratidão pela dolorosa partilha!


Me lembrei da primeira vez que você se dirigiu a mim… Depois de uma longa caminhada do professorado pela AV. Paulista até a Praça da República no dia 29/10/2015.


Início de noite fria, eu muito cansada e um tanto desanimada pela conjuntura adversa, você usando uma camisa amarela me lembro da cor (amarela como o sol).

Você não me disse nada… estendeu-me um último panfleto que tinha nas mãos, um sorriso cansado, mas tão esperançado, que me fez naquele mesmo dia te procurar nas redes sociais e te seguir os passos.


Suas memórias reavivaram algumas das minhas memórias, uma em especial, resposta do Saudoso “Prof. Tonhão” ao comentário que fiz ao livro “Aos que lutam, um pouco (muito pouco). De quem traduziu, na luta, a própria vida” (2014)


“em muitos momentos senti-me personagem anônima desta história que já não é mais só sua. Vi-me menina em meados de 1978, despercebida dos olhares adultos (aflitos, fadigados) a brincar na tulha entulhada de café. Aquele tinha sido um ano glorioso, colheita farta. No Natal teria Guaraná e frango assado. Minha inocência de menina foi de súbito usurpada. Uma lágrima vi misturar-se ao suor do rosto avermelhado, queimado pelo sol, aquele rosto tão belo de migrante nordestino, mistura de africano, holandês e Índio... Ah! Que saudades de beijar seu rosto meu Pai João. (há 17 anos falecido) O motivo daquela lágrima? A consciência de quem era explorado! Com qual indignação ouvi meu pai dizer que ele não era dono do fruto do seu trabalho, não possuía o titulo das terras que de sol a sol seu suor regava. Éramos só mais uma família naquela colônia de meeiros, metade de toda a safra (os melhores grãos é claro) era reservado ao proprietário. Pensei eu menina de 8 anos de idade, não chora papai querido ainda tens sua metade! Engano de quem não entendia as regras daquele jogo nefasto. À metade do patrão vi sendo juntado mais 10% das sacas de café (para pagar os gastos da produção) e mais 20% (Adiantamento feito pelo proprietário no decorrer do ano, dinheiro que pagara a farinha, o óleo, o macarrão dos domingos e o sal que dava gosto à vida, a regra permitia criar galinha, pescar no rio e até plantar mandioca e coletar as frutas dos pomares que cercavam nossas casas). Caro Professor! Eu mal estava alfabetizada, não entendia a tabuada... Mas aquela matemática “da tulha esvaziada” essa eu nuca mais esqueci.”


Resenhar uma obra como a que você nos presenteia “Rumo à Estação Catanduva…” não é tarefa para amadora como eu, assim, parafraseio o Professor Tonhão (Sempre presente!) para expressar minha admiração pelo escritor, vencedor de tantas batalhas nessa Guerra pela vida. “estas histórias não podem simplesmente fazer parte do acervo do nosso inconsciente, têm que ser públicas “


Rumo à Estação Catanduva… é mais que relatos de superação em meio a belas ilustrações, ao virar cada página sentimos pulsar o esperançar de um homem que escreve com a vida.


Abraço Fraterno!


Lúcia Peixoto - Professora de Filosofia na Rede pública Estadual, Ex-presidenta da Aproffesp,Poeta, Artesã, Bacharel em Ciências da Religião, Licenciada e Pós Graduada em Filosofia, Cursando Formação Pedagógica em História.

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