TOMAR PARTIDO É PRECISO!


Por Aldo dos Santos***
Uma reflexão filosófica sobre a luta de classes, a necropolítica, o nazifascismo e a responsabilidade histórica de tomar partido pela vida.
“Odeio os indiferentes. Como Friedrich Hebbel, acredito que viver significa tomar partido. [...] Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.”
— Antonio Gramsci, Odeio os indiferentes, 1917.
A indiferença não é neutralidade
A contundente reflexão de Antonio Gramsci, escrita em 1917, permanece profundamente atual. Mais de um século depois, suas palavras continuam a interpelar a consciência humana, especialmente neste momento histórico marcado pelo aprofundamento das contradições entre capital e trabalho, pela concentração da riqueza, pela violência institucional e pela permanência de manifestações autoritárias e neofascistas.
Para Gramsci, a indiferença não representa uma posição exterior à história. Ao contrário, aquele que se abstém de participar da vida política também interfere, ainda que passivamente, nos acontecimentos sociais. A omissão pode favorecer a continuidade das relações de dominação e exploração.
A história não é produzida apenas pelos que agem conscientemente. Também é condicionada pela passividade daqueles que, diante das injustiças, preferem o silêncio.
É nesse sentido que a indiferença pode transformar-se em cumplicidade objetiva com a manutenção de estruturas sociais desumanizadoras.
Na perspectiva marxista, a sociedade capitalista é atravessada por contradições estruturais que se expressam nas relações entre as classes sociais. A produção coletiva da riqueza convive com sua apropriação privada, enquanto milhões de trabalhadores enfrentam dificuldades para garantir as condições materiais necessárias à existência.
Nesse contexto, tomar partido não significa simplesmente aderir a uma legenda partidária. Significa reconhecer a natureza histórica das desigualdades e assumir uma posição consciente diante das relações sociais que as produzem.
A indiferença diante da exploração não elimina os antagonismos de classe. Apenas contribui para que eles continuem sendo reproduzidos.
Necropolítica: o poder que administra a morte
O filósofo camaronês Achille Mbembe desenvolveu o conceito de necropolítica para analisar formas de exercício do poder que submetem determinadas populações à morte, à violência sistemática e a condições extremas de vulnerabilidade.
Sua reflexão permite compreender como estruturas políticas, militares e econômicas podem produzir espaços nos quais determinados grupos humanos são tratados como descartáveis.
A necropolítica manifesta-se em contextos de guerra, ocupação colonial, violência racializada e outras formas de dominação nas quais a exposição à morte se transforma em instrumento de poder.
Essa categoria também permite problematizar realidades contemporâneas nas quais a vida de determinados segmentos sociais parece possuir menor valor político e institucional.
Quando a morte de jovens negros nas periferias, a violência contra povos indígenas, o abandono de populações empobrecidas ou a destruição das condições de sobrevivência de comunidades inteiras são naturalizados, impõe-se uma questão fundamental: quais concepções de sociedade permitem que essas situações sejam consideradas aceitáveis?
A resposta não pode limitar-se à análise das instituições responsáveis pela violência. É necessário investigar também os fundamentos ideológicos que procuram legitimá-la.
É nesse ponto que se abre espaço para uma reflexão sobre a necrofilosofia.
A necrofilosofia: quando o pensamento procura justificar a barbárie
O professor Aldo dos Santos tem utilizado a expressão necrofilosofia como provocação crítica àquelas concepções de mundo que, em lugar de contribuírem para a emancipação humana, procuram justificar, naturalizar ou legitimar a violência, a exploração, a desumanização e a morte.
A expressão suscita uma indagação fundamental: a filosofia, concebida historicamente como busca da sabedoria e reflexão sobre a existência, pode também ser instrumentalizada para conferir legitimidade à destruição da vida?
A história demonstra que sistemas de dominação não se sustentam exclusivamente pela força. Necessitam também de discursos, justificativas, valores e interpretações da realidade capazes de apresentar a opressão como necessidade, a desigualdade como destino e a violência como instrumento legítimo de organização social.
O colonialismo europeu, a escravização de africanos, a expropriação dos territórios indígenas e os regimes nazifascistas recorreram, em diferentes circunstâncias históricas, a formulações ideológicas destinadas a justificar hierarquias raciais, sociais e políticas.
Essas experiências não foram idênticas, mas revelam como determinadas construções intelectuais podem participar da legitimação de relações profundamente desumanizadoras.
Nessa perspectiva, a necrofilosofia pode ser compreendida como uma categoria crítica voltada à investigação das ideias que transformam a morte, a exclusão e a destruição humana em acontecimentos aceitáveis ou justificáveis.
É importante estabelecer uma distinção conceitual:
Enquanto a necropolítica examina as formas de exercício do poder que submetem populações à morte, a necrofilosofia, na acepção crítica aqui proposta, interroga os fundamentos filosóficos e ideológicos que procuram legitimar essas práticas.
A necrofilosofia não é, portanto, uma defesa da morte. É uma expressão utilizada para denunciar a instrumentalização do pensamento em favor da barbárie.
Essa formulação pode dialogar com a obra de Erich Fromm, especialmente com sua distinção entre orientações necrófilas e biófilas.
Para Fromm, a orientação necrófila está associada à atração pela destruição, pelo controle mecânico e por aquilo que se opõe ao desenvolvimento da vida. A biofilia, em sentido contrário, expressa a valorização da existência, da criatividade e do crescimento humano.
Embora Fromm tenha desenvolvido essas categorias em outro contexto teórico, sua contribuição permite ampliar o debate sobre as relações entre pensamento, poder e destruição.
A necrofilosofia, assim compreendida, não se limita à identificação de discursos explicitamente favoráveis à morte. Também questiona as construções ideológicas que tornam socialmente toleráveis a miséria, a fome, a violência e a exclusão de milhões de seres humanos.
Uma sociedade que naturaliza a morte de trabalhadores, transforma populações vulneráveis em grupos descartáveis e subordina sistematicamente a dignidade humana aos interesses da acumulação econômica precisa ter seus fundamentos filosóficos e políticos radicalmente questionados.
Nazifascismo, intelectuais e a produção da hegemonia
Antonio Gramsci oferece instrumentos indispensáveis para compreender o papel dos intelectuais na construção e na reprodução das relações de poder.
Sua concepção de hegemonia demonstra que a dominação de classe não depende exclusivamente da coerção estatal. Ela também envolve a produção de consensos, valores, concepções de mundo e interpretações da realidade que procuram apresentar interesses particulares como se fossem universais.
A escola, os meios de comunicação, as instituições religiosas, os partidos políticos e diferentes organizações da sociedade civil constituem espaços nos quais se desenvolvem disputas ideológicas.
Nesse processo, os intelectuais podem contribuir tanto para a reprodução das relações de dominação quanto para a elaboração de projetos emancipatórios.
O nazifascismo histórico demonstrou de maneira dramática como a propaganda, a manipulação ideológica, o racismo e a perseguição política podem ser mobilizados para destruir direitos e legitimar práticas de extermínio.
A experiência nazista não se sustentou apenas pela repressão policial e militar. Também contou com a participação de setores intelectuais e institucionais que procuraram atribuir aparência científica, jurídica ou moral a políticas de segregação e perseguição.
No Brasil contemporâneo, a influência de Olavo de Carvalho sobre setores da direita radical e do conservadorismo político constitui objeto relevante de investigação crítica, particularmente quanto ao anticomunismo, à contestação de instituições acadêmicas e à formação de uma cultura política de confronto ideológico.
É necessário, entretanto, distinguir rigorosamente conservadorismo, autoritarismo, neofascismo e nazismo. A utilização dessas categorias exige exame histórico das ideias, dos discursos e das práticas, evitando generalizações que enfraqueçam a própria crítica.
O enfrentamento de concepções autoritárias não se realiza apenas pela denúncia de seus representantes. Exige compreender as condições sociais que favorecem sua difusão e os interesses políticos que podem se beneficiar delas.
É precisamente nesse terreno que a reflexão sobre a necrofilosofia encontra a concepção gramsciana de hegemonia.
Se a hegemonia envolve a disputa pela direção intelectual e moral da sociedade, combater a necrofilosofia significa também enfrentar as ideias que procuram transformar a desumanização em senso comum.
A luta de classes e a naturalização da violência
As contradições da sociedade capitalista não se expressam exclusivamente no espaço da produção econômica.
Elas também se manifestam no acesso à educação, à saúde, à moradia, à alimentação, à cultura e aos demais direitos necessários à existência humana.
Quando trabalhadores são privados de direitos fundamentais, quando a juventude pobre encontra obstáculos para permanecer na escola, quando populações indígenas enfrentam a invasão de seus territórios e quando a violência contra grupos socialmente vulnerabilizados passa a ser tratada com indiferença, estamos diante de manifestações concretas de uma sociedade profundamente desigual.
Nem toda desigualdade ou política social excludente constitui, por si só, necropolítica. Entretanto, a articulação entre exploração econômica, discriminação estrutural e exposição sistemática de populações à morte pode produzir condições que exigem essa análise.
A necrofilosofia, por sua vez, permite questionar as justificativas ideológicas que procuram naturalizar tais processos.
Não se trata de atribuir a uma única corrente filosófica todos os problemas da humanidade, mas de reconhecer que ideias e discursos podem cumprir funções sociais concretas.
A filosofia, a ciência e a educação não existem fora das relações históricas. Seus conhecimentos podem ser apropriados por diferentes projetos de sociedade.
Por isso, a crítica filosófica deve investigar não apenas a coerência interna das ideias, mas também suas consequências sociais e os interesses que eventualmente legitimam.
Nesse sentido, o pensamento marxista fornece instrumentos para compreender a relação entre as condições materiais de existência e a produção das formas de consciência social.
A crítica à necrofilosofia pode integrar esse esforço de desvelamento das ideologias que contribuem para reproduzir a exploração e a desumanização.
Da indiferença à consciência crítica
A afirmação de Gramsci — “viver significa tomar partido” — adquire significado ainda mais profundo quando relacionada às condições históricas que produzem sofrimento, violência e exclusão.
Não podemos permanecer indiferentes diante da fome, do racismo, das guerras, da perseguição política, da destruição ambiental e das ameaças aos direitos sociais.
Também não podemos aceitar que o autoritarismo seja apresentado como solução para os problemas produzidos pelas próprias contradições sociais.
Entretanto, tomar partido exige responsabilidade ética e intelectual.
O combate às ideias desumanizadoras não pode reproduzir a intolerância que pretende superar. A defesa da emancipação humana deve estar vinculada ao respeito à dignidade, às liberdades democráticas, ao pluralismo e ao direito à divergência.
A crítica filosófica não se confunde com a eliminação do adversário. Seu objetivo deve ser compreender, questionar e transformar as condições que tornam possíveis a opressão e a violência.
É nesse sentido que a educação assume papel fundamental.
Uma educação comprometida com a formação crítica não pode limitar-se à transmissão mecânica de conteúdos. Deve contribuir para que os sujeitos compreendam as relações sociais, reconheçam as contradições históricas e participem conscientemente da transformação da realidade.
A filosofia, nesse processo, não pode ser reduzida a um exercício abstrato, distante das necessidades humanas.
Sua contribuição emancipatória está na capacidade de questionar o mundo existente e participar da construção de alternativas.
Karl Marx, em sua décima primeira tese sobre Feuerbach, afirmou que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras, quando a questão fundamental consiste em transformá-lo.
Gramsci desenvolveu essa perspectiva ao relacionar filosofia, política, cultura e organização coletiva, compreendendo a transformação social como processo que exige também a construção de uma nova concepção de mundo.
Assim, enfrentar a necrofilosofia significa disputar os fundamentos éticos, culturais e políticos da sociedade.
A filosofia da vida contra a filosofia da barbárie
Se a necrofilosofia denuncia as concepções que naturalizam a destruição humana, sua contraposição emancipatória deve afirmar uma filosofia comprometida com a vida.
Uma filosofia que reconheça a dignidade de todos os seres humanos, que enfrente as desigualdades estruturais e que compreenda a liberdade não apenas como direito formal, mas também como possibilidade concreta de desenvolvimento humano.
A defesa da vida exige condições materiais de existência.
Não existe liberdade substantiva quando milhões de pessoas são privadas de alimentação adequada, educação, saúde, moradia e trabalho digno.
Não existe emancipação humana enquanto a riqueza socialmente produzida convive com formas extremas de miséria e exclusão.
A filosofia da vida, nessa perspectiva, não representa simples declaração moral. Constitui um compromisso histórico com a superação das estruturas que reproduzem a exploração e a violência.
A reflexão de Gramsci sobre a indiferença, a análise de Mbembe sobre a necropolítica e a formulação crítica da necrofilosofia utilizada pelo professor Aldo dos Santos podem, portanto, dialogar na compreensão de um problema comum: a necessidade de enfrentar as condições materiais, políticas e ideológicas que tornam a desumanização possível.
Cada conceito possui seu campo próprio de investigação, mas todos podem contribuir para uma crítica das estruturas de dominação.
Considerações finais: viver significa tomar partido
Vivemos tempos em que a humanidade dispõe de extraordinários conhecimentos científicos e tecnológicos, mas continua convivendo com guerras, fome, exploração, racismo, violência e profundas desigualdades sociais.
Essa contradição exige reflexão e posicionamento.
Não podemos aceitar que o desenvolvimento das forças produtivas seja acompanhado pela naturalização do sofrimento humano.
Não podemos admitir que discursos de ódio sejam confundidos com liberdade irrestrita para desumanizar.
Não podemos permanecer silenciosos diante de práticas políticas que relativizam a dignidade humana ou procuram legitimar a violência contra populações vulnerabilizadas.
A indiferença, denunciada por Gramsci, encontra terreno fértil quando a sociedade perde sua capacidade de indignação diante da injustiça.
A necropolítica revela formas pelas quais o poder submete determinadas populações à morte.
A necrofilosofia, como categoria crítica em desenvolvimento, permite interrogar as concepções de mundo que procuram justificar ou naturalizar essa realidade.
O enfrentamento dessas manifestações exige consciência histórica, organização coletiva, educação crítica e compromisso com a emancipação humana.
Odiar a indiferença não significa odiar pessoas. Significa recusar a passividade diante da barbárie.
Significa compreender que a história é construída por sujeitos concretos e que nenhuma transformação social emancipatória será resultado exclusivo da vontade dos poderosos.
A humanidade precisa de uma filosofia que não se curve à morte, que não legitime a exploração e que não transforme a desigualdade em destino inevitável.
Precisamos de uma filosofia que contribua para libertar a vida das estruturas que a aprisionam.
Diante da necropolítica, defendamos a vida.
Diante da necrofilosofia, construamos uma consciência filosófica emancipatória.
Diante do nazifascismo e de suas manifestações contemporâneas, defendamos a democracia, os direitos humanos e a justiça social.
Diante da indiferença, tomemos partido.
Porque viver não é apenas existir.
Viver é participar da história, enfrentar suas contradições e contribuir para a construção coletiva de uma humanidade verdadeiramente emancipada.
Referências bibliográficas
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras.
FROMM, Erich. O coração do homem: seu gênio para o bem e para o mal. Obra sobre as orientações necrófila e biófila.
GRAMSCI, Antonio. Odeio os indiferentes. Publicado originalmente em La Città Futura, 11 de fevereiro de 1917.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. 1845.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Escrita em 1845–1846.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
Nota conceitual: A expressão necrofilosofia é aqui desenvolvida a partir do uso crítico apresentado em varias ocasiões. Esta formulação é apresentada como proposta interpretativa em desenvolvimento. A aproximação com Mbembe, Fromm, Marx e Gramsci constitui uma articulação teórica proposta neste texto.
Aldo dos Santos - Ex-vereador em sbcampo, professor de filosofia no cursinho Passo a Frente, Diretor Estadual da Apeoesp, vice-presidente da Aproffib.



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