O Botujuru


Atualmente, em São Bernardo, Botujuru designa a área situada entre a Via Anchieta e os bairros Demarchi, Batistini e Balneária, delimitada a oeste e ao sul respectivamente pelos ribeirões do Soldado e do Simões. O nome é há muito associado a um acidente geográfico daquelas redondezas: já em um documento de 1824, Manoel Joaquim Ribeiro, fiscal do caminho de Santos, apontava “Morro do Botujuru” como um dos pontos da rota do mar que necessitava de manutenção (1). Referia-se o funcionário à zona com elevações entre 870m e 900m, que margeava naquelas redondezas o antigo caminho, hoje passagem da Via Anchieta - não à toa, como aponta o filólogo Eduardo Navarro, Botujuru significa no idioma tupi “boca da montanha” ou “boca da serra” (2). Com efeito, esse setor de relevo acidentado extrapola os supracitados limites do atual bairro, e contempla terras situadas no lado oposto da Anchieta, hoje pertencentes ao Montanhão (Morro da Sabesp, Areião), onde, por sinal, existia no início do século XX uma propriedade com o nome Sítio Botujuru (3) .

Tanto esse sítio como as terras do atual Bairro Botujuru integravam em tempos mais remotos a fazenda do Capitão Francisco Mariano Galvão Bueno, proprietário que chegou a possuir ali, por volta de 1820, culturas de milho, mandioca, feijão e arroz, tocadas pelos 21 escravos de seu plantel (4). Após a morte de Galvão e de sua esposa Maria Eufrosina da Cruz Almada, essa grande unidade territorial progressivamente foi se fragmentando em diversos sítios menores, processo que continuaria ao longo da maior parte do século XX, intensificado inclusive pelo aparecimento de loteamentos pretensamente voltados a chácaras de veraneio e similares. Um destes foi a Vila Santos Dumont, área vizinha do atual Jardim Jussara, planejada em 1954, entre o km 26 da Anchieta e trecho remanescente da Estrada do Vergueiro, propriedade que pertencera ao cafeicultor Jorge Dumont Villares, sobrinho do célebre aviador que dá nome ao local. Outro loteamento deste gênero, também concebido nos anos 1950, foi o “Chácaras Porongaba”, do investidor paulista Luiz de Souza Barros, conjunto de 86 propriedades com tamanhos entre 2 mil m² e 5 mil m², cortadas pela estrada Ribeirão do Soldado.

Além destes loteamentos, havia no Botujuru duas outras áreas rurais importantes já mais próximas da divisa com o Bairro Demarchi: o sítio do exportador de café de Matão Francisco Malzoni, onde hoje é o Terra Nova 2, existente desde a década de 1940 pelo menos e uma gleba de terras pertencente à família Lewandowski, da fábrica de bicicletas Mercantil Suissa. Esta propriedade, denominada Sítio Regina (área do atual Condomínio Swiss Park), caracterizava-se por sua criação de porcos e também pelos seus belos lagos, ainda hoje preservados em espaço interno do condomínio.

A urbanização atingiria o Botujuru de forma limitada e retardatária em comparação a outras zonas da cidade. Isto se deve pelas suas características topográficas bastante desfavoráveis na maioria de seus espaços, qualificados nos anos 80 pela Emplasa como locais de sérias ou severas restrições à assentamentos desse tipo (5). O primeiro assentamento com características urbanas, ainda que precárias, foi a ocupação do Jardim Jussara, que em 1977 possuía 224 domicílios (6). Em terrenos adjacentes, outra ocupação similar surgiria no final dos anos 80, a Vila Lulaldo. Porém, apesar desses núcleos juntos a Anchieta, a maior concentração urbana do bairro apareceria em sua porção norte, nas proximidades da Av. Nicola Demarchi. Ali, o loteamento pioneiro foi o do Terra Nova II (7), aberto em 1982, na área do antigo sítio dos Malzoni, tendo a princípio 530 lotes. Depois, um pouco mais a oeste, surgiria no início da década de 1990 a Vila das Valsas e o Núcleo Botujuru, atual Vila Arco Iris. E por fim, despontaria, nas terras que foram dos Lewandowski, o Swiss Park, condomínio de alto padrão, lançado em 1996. Esses loteamentos resultariam numa significativa expansão populacional no Botujuru entre a década de 1980 e o ano 2000, período em que o número de habitantes do local saltou de 1,5 mil para 11 mil pessoas ( 8 ).

(1) dos Santos. W. Antecedentes Históricos do ABC Paulista. 1992. PMSBC

(2) Navarro. E. A. Dicionário de Tupi Antigo, p. 548. 2013. Global Editora.

(3) Diário Oficial do Estado de São Paulo, 02-07-1927

(4) Maços de População -1818. Arquivo do Estado de SP

(5) Planta de Aptidão Física para Assentamento Urbano. 1985. EMPLASA.

(6) Planta de localização das favelas de SBC. 1977. PMSBC

(7) Sequência do vizinho Terra Nova I, mas já em área do BairroDemarchi.

( 8 ) Censos populacionais 1980, 2000. IBGE.

Na imagem, vista da região do Botujuru em 1988, na altura do km 26,5 da Via Anchieta, onde se localiza o Jardim Jussura e as vilas Santos Dumont e Lulaldo.

Pesquisa, texto e acervo: Centro de Memória de São Bernardo

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