Eleanora Marx

Atualizado: 3 de ago.


Por: Aldo dos Santos***


A expressão popular publicou, em 2021, o importante romance sobre a vida de Eleanora Marx, de autoria de Maria José Silveira, que discorre sobre a vivência, os desafios da militância e a trágica morte de Eleanora [1].

Eleanora compõe o quadro dos históricos gigantes organizadores e militantes da luta e da teoria pelo socialismo.

A convivência, a intimidade, as dificuldades da família Marx e as tragédias com os filhos do casal são expostos neste romance e, já naquela época, a figura do Mouro (apelido de Marx) e do General (apelido de Engels) é incontestável do ponto de vista dos grandes teóricos e influenciadores da vanguarda revolucionária.

Eleanora participava da organização dos documentos do pai e de Engels, dos congressos, das internacionais, da luta pelas 8 horas de trabalho, além do seu empenho na publicação de o Capital, dentre outras tarefas agitativas e revolucionárias.

Ao falar do pai, ela dizia que o mesmo tratava com rigor intelectual os que ousassem questionar as mudanças dos rumos do movimento, porém, no trato caseiro ela afirmava: “Não era fácil se opor a ele, não era mesmo, e ele acabava criando muitos desafetos. Mas conosco era outra coisa. Nossa casa vivia cheia de amigos e companheiros, e ele passava horas com a maior paciência, explicando o que pensava sobre isso ou aquilo. Ficavam conversando até de madrugada, em torno de garrafas de vinhos e da fumaça do tabaco dos cachimbos. Ele e o grupo de amigos liam, bebiam, conversavam, escreviam, riam muito, discutiam. Faziam piadas, fofocas, jogavam cartas e xadrez. Era uma casa cheia de vida e entusiasmo, onde a paixão pelas ideias e pelo ideal revolucionário animava as discussões e as conversas acaloradas, e deixava aceso o lampião até o sol nascer ” (p. 17).

Em seus relatos, observa-se que por longos anos foi apaixonada por Lissagaray, relacionamento este, não aprovado por Marx.

“Na verdade, ela jamais chegou a brigar com o Mouro, jamais teve raiva dele. Nunca. Mas houve momentos em que se morreu por não ser capaz de entender por que o pai proibia aquele namoro. Por que não queria que afilha se casasse com Lissagaray. Ela sofreu tanto naquela época, justo a época que poderia ter sido a mais feliz, a época do grande amor, e que foi toda dividida entre os belos momentos de inferno em que temia magoar o pai ” (p. 53).

Superado o primeiro conflito em relação ao sentimento de afeto que nutria por Lissagaray, numa relação proximal de militância cotidiana, passou a se relacionar e conviver com Edward, enfrentando desde o início permanentes discórdias e profunda divergência e até chantagem financeira no relacionamento, por parte de Edward.

Numa das citações observa-se: ”ele tem uma maneira refinada de torturar Eleanora. Não escuta, não responde, não vê. Inerte, gelado ” ( p. 50).

Envolvida pela cegueira da paixão, ela vai cedendo aos caprichos de Edward numa escala ilimitada do ponto de vista do relacionamento, extrapolando os problemas para outras esferas das relações partidárias e da luta pelo socialismo.

O relacionamento causa sofrimento a Eleanora, da mesma forma que a saúde precária do pai fica cada vez pior. Esgotada e abalada por essa situação, “A conselho médico, pai e filha partem para uma temporada nas estâncias termais de Harrogate e, logo depois, Carlsbad. Ele, sofrendo de problemas do fígado agravados pelo esgotamento nervoso e ela, de problemas diagnosticados como exaustão nervosa ” (p. 59/60).

Todo conflito tem sua gravidade e, neste caso, as relações familiares, intelectual e os tensionamentos diante de momentos conjunturais e amorosos, nos remetem a desafios das mais variadas formas.

A convivência entre Eleanora e Edward nunca foi boa, mas piora muito diante do apego dela, não correspondido pelo Edward, que expressa comportamento hostil e manipulador em relação a sua companheira.

Por vezes, as dores e sofrimentos eram sufocados pela intensa agitação na organização das internacionais, da organização das lutas das mulheres, na preocupação como o fundo de greve para manter as lutas dos operários em ação, dentre outros afazeres.

Como podemos observar, a relevância dos protagonistas e da própria Eleanora, diante da imensa multidão que compareceu ao primeiro domingo de maio de 1891, em Hyde Park, tomado por uma multidão com, “ mais de 300 mil pessoas” (p. 100).

Ao fazer referência a importância das greves, ela reflete: “a vitória de uma greve nem sempre é puro ganho, nem uma greve derrotada é, necessariamente, pura perda. Algumas vezes...é melhor lutar e perder do que não lutar...Todas as centenas de greves grandes e pequenas apontam para uma mesma conclusão...a de que o sindicalismo e as greves, por si só, não emancipam a classe trabalhadora...cuja liberdade econômica só poderá ser conseguida através do domínio do poder político no interesse de sua própria classe” (p. 101/102).

Um dos seus heróis, que partilhou sempre com a vida intelectual e manutenção da família Marx, ao final de sua vida foi cercada de conflitos e desentendimentos.

A morte do General foi um duro golpe para ela, pois o considerava um segundo pai. Engels desenvolveu a prática socialista, partilhando com quem precisava suas reservas e com a família de Karl Marx não foi diferente.

“Com a herança deixada por Engels, ela comprou a casa bastante confortável, onde tinha seu próprio estúdio e Edward tinha o dele. Estava cheia de planos, apesar de tudo. Recebia os amigos, participava das atividades do bairro, a escola dominical e o coral do grupo socialista, e logo se tornou uma figura querida pela vizinhança” (p. 114).

Fica implícito que numa das crises sobre os rumos da sua vida, principalmente na ausência dos entes queridos, profere como um desabafo: “ O tempo está passando, sua juventude está passando, seu amor está passando, tudo está passando e ela não tem nada de seu para se agarrar” (p. 124).

Na memória de Tussy, apelido que deram a ela, esse tempo é como “ uma longa, interminável noite sem dormir, sem pensar, sem viver, entre remédios, ansiedades e consternações” (p. 125).

Sensível ao sofrimento da classe e das pessoas em seu entorno, o golpe da morte dos pais e dos entes queridos, bate fundo na necessária existência da mesma.

O livro descreve ainda os últimos dias de Mouro, outra cena chocante para ela: “Poucos dias antes, sentindo que já estava perto do fim, ele decidira cortar sua barba. Antes, tirou uma última foto, para que as filhas sempre se lembrassem dele com a barba messiânica e juba prateada. Para Eleanora, ver o pai sem barba foi como vê-lo e, ao mesmo tempo, não o ver. A imagem daquele velho emagrecido pela doença, sem a espessa barba que ela puxava desde criança, fez Tussy engolir um grito.

“Eu vivi muitas horas tristes, mas nenhuma tão triste quanto aquela”, sempre dizia depois. Desolado e abatido, Marx volta a Londres para morrer em casa. No começo da tarde de 14 de março de 1883, quando Engels chega para a visita diária, Lenchen lhe diz que o Mouro está cochilando. Os dois sobem até o quarto, entram e compreendem que ele está morrendo. Eleanora tem vinte e oito anos e, com o pai, sente que perde uma grande parte de si mesma” (p. 130).

Em carta endereçada a amiga Olive, afirma que: “ Ele foi, sem dúvida a pessoa que mais me entendeu, que sabia o quanto, no fundo sou frágil o quanto necessito de me sentir cercada de afeto para viver (p. 131).

Acrescido ao sofrimento das várias perdas familiares, Eleonora tomou conhecimento que Edward tinha se casado com outra, aprofundando seu sofrimento, levando-a à trágica decisão de pôr fim a sua vida.

Aos 43 anos, a vida não faz mais sentido para ela e, diante da intensa dor e do intenso conjunto de conflitos e sofrimentos ao longo da vida, ela coloca um ponto final na existência física, deixando grande legado para a classe trabalhadora.

Um romance que retrata, ao mesmo tempo, a valentia e a fragilidade da condição humana, da condição militante, da luta pelo socialismo, da luta revolucionária e existencial da filha caçula de Karl Marx.

Em passagem constante no próprio livro, “Como materialista, Tussy não vê horror na morte. ‘Sabe que um dia terá que retornar, corpo e mente, ao coração da natureza de onde veio’, como o General falou no enterro de Mohme. O único problema de quem morre é o que se deixa. O problema da morte é de quem fica” (p. 135).

“Uma imensa multidão esteve presente no funeral de Eleanora. O corpo foi cremado e as cinzas, hoje, estão em Londres no mesmo túmulo de Marx, Jenny e Lechen. Os artigos que saíram nos jornais de vários países ressaltaram sua dedicação de vida inteira ao socialismo, os dons extraordinários de oradora e linguista, a vasta cultura, a personalidade amável e calorosa” (p. 149).

Apesar do impacto da morte, nossos sonhos e luta por um mundo novo continuam!


Aldo dos Santos – Ex-vereador em São Bernardo do campo, militante sindical e do Psol


[1] SILVEIRA, Maria José, Eleanora Marx, filha de Karl: um romance, São Paulo, Expressão popular, 1ª edição, 2021, 167p.

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