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A trajetória e pensamento de Aldo Santos

Neuza A. O. Peres*** A trajetória e pensamento de Aldo Santos.

Aldo Santos, professor aposentado, ex-vereador de São Bernardo do Campo e militante histórico das lutas populares, construiu sua vida entre o chão da roça, o chão da escola e o chão da periferia. Migrante do Ceará, expulso pela seca e pela fome, chegou a São Paulo ainda bebê e enfrentou todas as dificuldades típicas da maioria dos brasileiros pobres. Um acidente de trabalho na adolescência, que o deixou hospitalizado por quatro anos, foi decisivo para despertar sua consciência sobre as injustiças sociais.

Esse despertar se consolidou nas comunidades eclesiais de base e nas grandes greves do ABC no final dos anos 1970, que marcaram a redemocratização e deram voz à classe trabalhadora. Aldo participou da fundação do PT, foi candidato a deputado estadual em 1982 e exerceu mandato como vereador por 16 anos, sempre comprometido com moradia, educação e justiça social.

Em sua análise, o capitalismo é uma crise permanente, marcada pelo antagonismo irreconciliável entre capital e trabalho. Para ele, não basta disputar eleições: é preciso disputar o sistema, visando a superação do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista. Aldo critica a extrema direita por avançar com pautas claras e mobilizadoras, enquanto a esquerda muitas vezes se retrai ou se limita ao ciclo eleitoral. Ele defende que pautas concretas — como a redução da jornada de trabalho sem redução de salário e a reforma urbana — são fundamentais para dialogar com o povo e fortalecer a luta.

Aldo também denuncia a perseguição política que sofreu, especialmente após apoiar o acampamento Santo Dias do MTST em 2003. Por ter cedido uma Kombi oficial para transportar pessoas doentes durante a ocupação, foi processado, condenado à perda de direitos políticos por cinco anos e multado em milhões de reais. Ele chama isso de lawfare, uma forma de criminalizar lideranças populares por meio do judiciário. Apesar das dificuldades financeiras e pessoais, afirma que faria tudo novamente, porque sua luta é pela reforma urbana, pela reforma agrária e pelo socialismo.

Ao longo da entrevista, Aldo reforça que a história não é linear, mas feita de choques de classe e de enfrentamentos. Ele lembra que direitos não são concedidos pelas elites, mas conquistados pela organização coletiva. Para ele, a consciência crítica nasce nas greves, nos protestos, nas ocupações — verdadeiras academias de formação política.

Sua fala é marcada pela convicção de que a classe trabalhadora é quem produz a riqueza e, portanto, deve ser protagonista da transformação social. Ele denuncia a manipulação ideológica que leva trabalhadores pobres a apoiarem pautas da direita, muitas vezes influenciados por meios de comunicação e discursos religiosos que prometem recompensa no além. Mas reafirma sua esperança de que, dialeticamente, a história pertence à classe trabalhadora.

No encerramento, Aldo Santos deixa claro que sua trajetória é movida pela convicção de que não há neutralidade possível: ou se aceita a engrenagem do sistema ou se atua para transformá-la. Sua vida é testemunho de que sem enfrentamento não há mudança e que toda conquista tem preço. Como no poema Operário em Construção, de Vinícius de Moraes, Aldo é o trabalhador que aprende a dizer “não” e que, ao se reconhecer como autor do mundo que ergue, passa a resistir e a transformar.

O presente texto foi elaborado a partir da entrevista do Prof Aldo dos Santos a Dom Ernesto, no programa “Conversa sem curva” do canal TVT, levado ao ar em 05/05/26. Destaco a fala de Dom Ernesto ao apresentar o entrevistado: “O operário em construção, trabalhador que descobre pouco a pouco que é ele o responsável por erguer o mundo, e, ao mesmo tempo é moldado por ele. Até que num dado momento passa a compreendê-lo, ao compreender o mundo, muda, e ao mudar aprende a dizer não. Uma tomada de consciência que não é poética, é histórica.”


Neuza A. O. Peres, presidenta da Aproffib


Segue abaixo o link do programa para acessar todo o conteúdo da entrevista:

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