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POR QUE EU TENHO QUE ESTUDAR FILOSOFIA?

Foto do escritor: Aldo Santos
Aldo Santos
há 4 horas
6 min de leitura

Douglas Gregorio***


POR QUE EU TENHO QUE ESTUDAR FILOSOFIA? QUAL A UTILIDADE? O PRECONCEITO RETORNA AO ENSINO MEDIO.

O ensino médio enfrenta uma crise não só brasileira, mas mundial. O capitalismo financeiro anula o sentido em se dedicar anos à escola, pois o acelerado desenvolvimento tecnológico tem dois pontos paradoxais entre si: garantir um consumo cada vez maior, na mesma medida em que elimina cada vez mais custos com o trabalho humano, e isso obsoletiza diplomas - o estudante ingressa numa carreira universitária e, até ele ser diplomado no final de quatro anos muitas das funções e procedimentos que decorreriam de seu exercício profissional já foram substituídos por novas tecnologias, jogando sua perspectiva de empregabilidade e expectativas futuras no lixo. E o ensino de Filosofia, como fica diante disso?

A história da Filosofia no ensino médio, pode-se afirmar, teve início com a redemocratização na década de 1980, salvo parcos antecedentes.

Com a redemocratização, a Filosofia era a grande novidade na escola, virou uma moda.

Os poucos professores de Filosofia disponíveis estavam diante de uma missão: introduzi-la no ensino médio. Iniciou-se um processo no qual promover a introdução da Filosofia e da Sociologia na grade tornou-se símbolo da apresentação de um novo ensino para novos tempos de democracia, e foi aí que surgiu o equívoco da abolição da Filosofia pela ditadura. Ainda hoje é forte o mito de que a ditadura militar aboliu a Filosofia no ensino médio, mas não foi isso que aconteceu.

Este que vos escreve cursou médio numa escola estadual no início da década de 1980 a qual manteve a Filosofia na grade por todo o período dos 21 anos sem que houvesse nenhum tipo de restrição.

O equívoco vem de um detalhe da LDB da ditadura, a 5692/71 - a "parte diversificada": era reservado um espaço para a inclusão de disciplinas relacionadas, a critério da unidade escolar: a Filosofia, a Sociologia e a Psicologia.

O que ocorria era que não somente os licenciados em Filosofia eram raríssimos, bem como havia um cerceamento às disciplinas de humanas, e a repressão gerava temor nos educadores, o que tornava a Filosofia ausente nas escolas. Na verdade, por mais incrível que possa parecer, foi justamente a LDB da ditadura que, de forma inédita, abriu espaço para a Filosofia no ensino médio, ainda que na prática as raríssimas escolas que a ofereciam eram exceções.

Enfim, a ditadura militar não aboliu a Filosofia no ensino médio; ela a incluiu. Ainda que na prática isso não tenha acontecido, o espaço na grade curricular estava garantido pela então LDB vigente. Soa absurdo, mas foi isso que aconteceu.

Com o fim do regime militar, este processo de introdução da Filosofia no ensino médio foi extremamente doloroso para os professores dada a rejeição dos alunos corroborada pelo conjunto da comunidade escolar.

Nas salas de aula havia uma postura agressiva generalizada – para os alunos, a Filosofia se constituía num tripé: chata, difícil e inútil, postura esta assimilada pelas famílias que viam na introdução da Filosofia algo que em nada contribuiria para a formação de seus filhos representando um ônus desnecessário para os estudantes numa grade curricular já saturada. Isso resultava num relacionamento tenso e delicado entre alunos e professores, com frequentes episódios de conflitos em sala de aula. Já os gestores escolares tratavam a Filosofia como um "abacaxi" por terem que administrar dois problemas: a escassez de licenciados e mediação de tais conflitos, tão frequentes quanto as reclamações das famílias.

Atitudes de desdém eram comuns: o armário cedido a um novo professor de Filosofia era sempre o último do canto inferior - com sorte a fechadura estava funcionando, mas sempre apareciam armários melhor posicionados para novos professores de outras disciplinas.

O presente do professor de Filosofia no dia dos professores era frequentemente esquecido. Encaixes no horário de aulas, o que sobrava. Era comum a gestão propor a abolição de avaliações regulares considerando somente o engajamento como forma de minimizar conflitos. Projetos propostos pelo professor de Filosofia como caminho de consolidação da disciplina na grade eram sempre rejeitados diante de outras prioridades calcadas no argumento da preparação para os vestibulares. Conselho de classe, pressão para aprovar alunos sem condições.

Projetos multidisciplinares que nunca incluíam a Filosofia. Diante de alguma atividade extracurricular, era sempre a Filosofia que tinha que ceder seu tempo de aula. Pressão dos alunos, pressão das famílias, pressão da gestão. Pelo lado dos professores o problema continuava, porém justificáveis: tratava-se de uma nova disciplina: quais os conteúdos?

Quais as metodologias? Materiais didáticos não haviam. Neste período, muitos colegas em início de carreira ou procuraram cursar outras licenciaturas, ou mesmo abandonaram a profissão.

Voltando à situação atual, o discurso da "aquisição da consciência crítica" como objetivo da disciplina com certeza não convence ninguém, ele pouco ou nada significa para o aluno e talvez nem para o professor, uma justificativa fraca, praticamente nula.

Além disso, esse discurso contém um erro, pois soa como agressivo e arrogante: “você, aluno, é desinformado e ingênuo, por isso é dominado e oprimido pelo sistema e eu, o iluminado professor de Filosofia, estou aqui para salvá-lo da ignorância” como se o professor de Filosofia tivesse todo esse poder.

Nenhum estudante vai empenhar seu tempo e esforço em algo que lhe soa como complementar e decorativo, ainda mais perante as exigências dos vestibulares, pois naquela época o ingresso no ensino superior, mesmo nas faculdades mais modestas exigiam a passagem por vestibulares com significativo grau de dificuldade – a seletividade era mais intensa, e a oferta de vagas no ensino superior bem mais restrita que hoje.

Assim, uma disciplina precisa oferecer ao aluno uma "tangibilidade", e esta precisa ser imediata e responder à pergunta: para que estudar isso? E, dentro do espírito filosófico, é preciso considerar a legitimidade desse questionamento.

Em 2009, com a unificação dos vestibulares no ENEM e a inclusão da Filosofia valendo 25% da nota de humanas - o que é decisivo na conquista de uma vaga na universidade – tal marginalidade curricular da Filosofia desapareceu: estava oferecida a tangibilidade.

Após anos de preconceito, exclusão, agressões e desdém a situação mudou de forma rápida e radical, e os professores de Filosofia puderam respirar aliviados. Hoje no entanto, passadas quase duas décadas do surgimento do ENEM, a desilusão e falta de perspectiva de futuro para com o ensino médio e superior após anos de neoliberalismo faz com que o preconceito que parecia ter sido superado esteja retornando, já que citada tangibilidade da disciplina como fundamental para o ingresso na universidade deixa de existir. Ainda que longe daquela situação das décadas de 80 e 90 que forçou vários professores de Filosofia a buscar outras alternativas profissionais já se percebe certas situações que fazem renascer algumas dificuldades daquela época. Por exemplo, tem sido cada vez mais comum surgirem situações como acusações infundadas contra um suposto mau-comportamento dos professores de Filosofia em aula, uma busca de “pelo em ovo”, pois adolescentes não sabem dissociar a pessoa do professor da sua disciplina, ainda que o relacionamento em sala de aula não apresente algo em nível daquela antiga tensão.

Tudo isso sem falar na reforma do “novo ensino médio” que dificultou a situação do professor de Filosofia com a redução da carga horária ao mínimo exigido em lei, e no lugar entrou Projeto de Vida, a Educação Moral e Cívica do neoliberalismo.

Também tem sido frequente o ressurgimento do velho questionamento: qual a utilidade da Filosofia? Para que eu tenho que estudar isso? Diante desse questionamento quaisquer argumentos que o professor utilizar serão nulos, pois em verdade o aluno não está apresentando um questionamento. Ele não quer uma resposta – ele já a tem, tornando-o irredutível diante de quaisquer contra-argumentos por mais lógicos e pertinentes que sejam.

De nada adianta citar fatos como a transição histórica da monarquia absoluta para a república democrática movida pelo Iluminismo, da revolução científica no Renascimento com Galileu, Copérnico e a Nova Ciência, a definição do modelo de civilização construído pela Filosofia clássica da antiguidade grega, ou a reflexão ética necessária ante a dicotomia entre o desenvolvimento tecnológico e a preservação ambiental.

O aluno quando levanta este "questionamento" já tem uma resposta da qual não vai abrir mão: para ele tais argumentos são "coisas do passado" ou “adereços inócuos” que nada lhe dizem.

Ele quer ver no que a Filosofia interfere na sua situação cotidiana, no processo social e, por mais que o professor lhe mostre isso de forma clara e evidente, fato é que ele já tem uma posição consolidada... falaciosa, porém consolidada.

O aluno precisa de uma tangibilidade imediata - qual é a diferença o estudo da Filosofia fará de forma imediata em sua vida e na sociedade em que vive, ainda que aquela tangibilidade - conquistar uma vaga na universidade - não responda em essência porque estudar a Filosofia. Tal questionamento ocorre também noutras disciplinas.

Porém, no caso da Filosofia, ele é mais intenso já que, culturalmente, a Filosofia traz consigo a pecha de cultura inútil. Quem nunca ouviu a seguinte frase: “pare de filosofar e apresente uma solução prática”? Ademais, cabe aos professores de Filosofia recaírem numa reflexão necessária para a conjuntura atual.

É ingenuidade achar que aulas de Filosofia e Sociologia irão promover a aquisição de “consciência de classe e visão crítica” ante os preocupantes caminhos que as relações políticas, econômicas e institucionais em nível nacional e internacional tem apresentado nos últimos anos. Isso sem falar dos ataques de cunho político-ideológico e religioso que crescem cada vez mais na sala de aula hoje, mas esse é outro debate.


Douglas Gregorio - Professor de Filosofia no ensino médio desde 1988 e no ensino superior desde 2010. Graduado, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo – USP. Atuante no ensino médio estadual de São Bernardo do Campo – SP.

 
 
 

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