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O GOLPE DE 64.


Alberto Souza***



Nenhum golpe de Estado acontece por acaso, por mero capricho de determinados militares ou civis. Só se dá quando os grupos econômicos em geral, locais e de fora, se convencem de que este é o melhor caminho para proteger seus interesses, contra forças progressistas, mormente a classe trabalhadora, esta em avanço por mudanças econômicas e políticas, ameaçando seus privilégios.

O governo João Goular, ainda que em linha reformista, apresentava um projeto econômico e social, as Reformas de Base, agrária e outras, que jamais a burguesia local, associada ao imperialismo americano, aceitaria, principalmente, percebendo que as massas trabalhadoras se organizavam para defende-lo em demonstração de que tendiam para ir mais longe politicamente.

Era a burguesia se dando conta de que a sua própria democracia, na medida em que abria espaço para o povo deslanchar na sua consciência e práticas políticas, não lhe era mais conveniente. Igualmente a outros momentos, já no século 19, quando a classe trabalhadora passou a agir com autonomia, caminhando com objetivos próprios, de classe para si.

A BURGUESIA E O FASCISMO

A tal ponto chegou esta contradição da atual classe dominante que a classe operária passou a ter mais interesse em defender uma democracia que não é sua que a própria burguesia, que passou a recorrer a outra alternativa para se resguardar contra as lutas de quem ela explora. Nessa marcha, incompatibilizando-se com a sua própria democracia, a burguesia forja o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler, de cujas ideias gera o fascismo espanhol e de Portugal, rumo a outras ditaduras como a do Brasil de 64.

ORGANIZACÃO DO GOLPE.

A organização do golpe que se daria em 64 não partiu apenas de inimigos internos do povo e da democracia. Logo após a posse do Jango, os EUA já davam passos no sentido de mobilizar seu agentes, via CIA e sua embaixada no Brasil , para que se juntassem a golpistas militares e civis locais pela derrubada do presidente brasileiro. Militarmente, enviam ao nosso país o coronel Walter Vernon para que se unisse a Golbery de Couto e Silva, Castelo Branco e outros generais lesa-pátria, visando levar adiante um projeto ditatorial. Com o substituto de Kennedy, LYndo Jonhson, além do tal coronel, centenas de outros emissários sob diversos disfarces são enviados ao Brasil, para que o golpe tivesse êxito.

Do mais, a embaixada do Império a financiar a conspiração antidemocrática, dando dinheiro para candidatos opositores ao governo a diversos cargos públicos, de deputados, a senadores e governadores, através de institutos a serviço da escalada golpista, como IBAD e outros.

Fechando o seu cerco de ações contra nosso país, o imperialismo do Norte chega ao ponto de montar uma operação militar, chamada de Brother Sam, não só para armar os golpistas, caso o golpe falhasse, como também a fim de ação armada direta contra o país , se necessário fosse. Um operação já em marcha rumo ao Brasil em pleno 31 de março, quando Mourão Filho se deslocava com suas tropas em direção ao Rio de Janeiro em escalada para derrubar o governo.

O país poderia ser mais um, entre dezenas , a se ver invadido pelo imperialismo americano, recebio de braços abertos por generais do Exército Brasileiro. Todos traindo a Pátria.

É dito que João Goular não concordou com a resistência ao golpe, usando meio militares e outros, por temer a invasão ianque, ao ser informado de que a Brother Sam já se movimentava para este fim, rumo a águas brasileiras.

O certo é que não era do perfil do presidente Goulart agir com violência contra golpistas. Haja vista o fato de aceitar tomar posse em 61, submetendo-se ao parlamentarismo, condição imposta por militares e civis de direita para que pudesse assumir a presidência do país. Presidente, sem presidencialismo. Proibido de presidir.

SEM RESISTÊNCIA POPULAR

A esquerda nos anos 60 cria que as regras democráticas seriam respeitadas por todos os setores da sociedade, inclusive pela burguesia, apesar de esta já ter demonstrado que sempre que achar conveniente, para evitar a ascensão política da classe trabalhadora, para evitar suas conquistas principalmente políticas, recorre a negar a própria democracia burguesa, com fascismos e neofascismos adaptados a conjunturas. Por isso pouco ou quase nada foi feito para resistir à escalada golpista, limitando-se às próprias limitações de Jango e suas contradições de classe; um tanto a reboque dele.

A esquerda cheia de ilusão de classe.

O golpe vingou. E a ditadura durou 21 anos.

METÁSTASES DA DITADURA.

A ditadura se enfraquece. Chega a hora de não mais poder controlar o povo na rua. Vem o 1979. Aí, a burguesia trai um povo, que se manifesta, que quer democracia. Faz um acordo com quem tantos crimes cometeu contra nosso país e nossa gente. Através de seus representantes no Congresso aprova uma lei da anistia que também beneficia os agentes do regime, torturadores e assassinos de lutadores pela democracia. Criminosos que ficam livres e indiretamente estimulados para novos crimes contra o país e o povo, culminando com a eleição de um dos seus quadros a presidente da República, de que nasceu o 8 de Janeiro.

O velho câncer em forma de metástases num corpo tentando

ser novo.

EXEMPLOS DIFERENTES

É certo ter havido retrocesso na Argentina, com a eleição de um neofascista, chamado por acadêmicos e a mídia de ultradireita, mas tanto lá como no Chile e Uruguai não se deixou espaço para algum egresso de fardados, responsáveis por tantos crimes bárbaros contra seu povo, virasse presidente. É que nestes países os principais assassinos das ditadura local foram punidos, muitos presos, até com prisão perpétua. Em consequência, em nenhum deles um Bolsonaro falando espanhol, filhotão de um regime de lesa-pátria e lesa-humanidade.

A esquerda brasileira, pelo que não fez para evitar Bolsonaro e seus crimes, metástase de uma tragédia de 21 anos, tem muita autocrítica a fazer. Aguardemos.



Alberto Souza - Ex-vereador em sbc, sindicalista e educador popular.

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