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A revolução dos Bichos de George Orwell

Atualizado: 11 de out. de 2023


Professor Fagundes *


Um paralelo entre 'A Revolução dos Bichos' de George Orwell e a Realidade Autoritária: Uma Análise Inspirada na Leitura Inicial da Obra.

Ao revisitar as primeiras páginas de 'A Revolução dos Bichos', surge a imperiosa necessidade de pausar e contemplar esta obra emblemática de George Orwell. Isto ocorre porque, desde os primeiros indícios, torna-se evidente que o livro transcende a mera alegoria da opressão e da revolta no universo animal da Fazenda do Solar. Profundamente entrelaçada na trama, encontramos reflexos da realidade política do século XX através da representação dos líderes autoritários que marcaram época.

Ao folhearmos as páginas deste livro, somos levados a uma jornada intelectual que transcende a fábula animal, encontrando paralelos notáveis entre os personagens fictícios e figuras reais como Josip Broz Tito (Iugoslávia), Mao Tsé-Tung (China), Pol Pot (Camboja), Emílio Garrastazu Médici (Brasil), Augusto Pinochet (Chile) e Slobodan Milosevic (Iugoslávia). É a partir deste ponto de convergência literária e histórica que iniciamos nossa análise. Ao folhear as páginas que nos remetem a essa interligação entre a ficção e a realidade, encontramos, na página [ 37, da tradução feita por Claudio Blanc, da editora Troia], George Orwell traçando uma relação intrigante entre essas figuras que moldaram a história com suas ideologias e métodos de governança distintos.

A partir desse ponto, emergem analogias surpreendentes que nos convidam a explorar as complexas teias do autoritarismo e da opressão, que permeiam não só o universo ficcional da Fazenda do Solar, mas também os registros reais de governos marcados pelo poder absoluto e suas consequências. Neste contexto, adentramos em um exame aprofundado dessas conexões, compreendendo como as narrativas ficcionais ecoam nas narrativas históricas, e como os personagens de Orwell nos conduzem a uma reflexão crucial sobre a natureza do poder e da resistência, nesse sentido, desdobraremos o início da obra em quatro aspectos cruciais que iluminam as relações entre a narrativa ficcional e a realidade política que a permeia. Primeiramente, exploraremos o 1) Autoritarismo e as Estratégias de Governo, estabelecendo comparações entre líderes históricos e suas abordagens distintas. Em seguida, examinaremos como 2) as citações desses líderes encapsulam suas ideologias e táticas de governança, fornecendo percepções valiosas sobre seus métodos e motivações. Em paralelo, investigaremos 3) a influência profunda da Revolução Russa e do regime de Stalin na formação e ação de líderes autoritários ao redor do mundo. Por fim, mergulharemos na figura de 4) Napoleão Bonaparte, discernindo semelhanças marcantes entre suas práticas e as adotadas por líderes autoritários posteriores. Cada um destes pontos, de forma única, compõe um tecido intricado de conexões entre a literatura de Orwell e a história política do século XX.

1. Autoritarismo e Estratégias de Governo: Uma Comparação entre Líderes Históricos

Ao longo da história, diversos líderes autoritários deixaram uma marca indelével em seus países, impondo regimes de governo que se caracterizavam pela concentração de poder e repressão, entre eles, destacam-se as figuras já citadas. Embora representem contextos e ideologias distintas, é possível traçar relações notáveis em seus métodos de governança. Um ponto de convergência entre esses líderes foi a busca pela centralização do poder. Todos exibiram uma propensão para exercer controle absoluto sobre seus respectivos países e instituições governamentais. Essa tendência à concentração de poder manifestou-se em políticas autoritárias e repressivas, visando suprimir a oposição e manter um controle rígido sobre a população.

Além disso, a construção de cultos à personalidade foi uma estratégia recorrente. Mao Tsé-Tung, Pol Pot e, em menor medida, Tito, eram frequentemente retratados como líderes infalíveis e venerados. Suas imagens eram cuidadosamente cultivadas para inspirar devoção e submissão.

Outra característica compartilhada foi a adoção de ideologias comunistas ou socialistas como base para seus regimes. Tito, Mao Tsé-Tung e Pol Pot interpretaram esses princípios de maneiras distintas, aplicando-os conforme os contextos políticos e sociais de seus países.

Enquanto Tito, Mao e Pol Pot lideraram movimentos revolucionários ou guerrilheiros para alcançar o poder, Garrastazu Médici e Augusto Pinochet ascenderam através de golpes militares, estabelecendo governos autoritários sustentados pela força militar. Esses golpes representaram momentos cruciais em suas trajetórias políticas.

O nacionalismo também desempenhou um papel importante. Tito, Milošević e, em certa medida, Pinochet, utilizaram o nacionalismo como uma ferramenta para unificar suas populações e consolidar o poder. O apelo à identidade nacional era uma forma de legitimar suas ações e garantir o apoio popular.

2. As citações desses líderes encapsulam suas ideologias e abordagens:

Josip Broz Tito: "A liberdade é uma das condições fundamentais do homem, a menos que seja tomada dele, ele não pode dar o melhor de si."

Mao Tsé-Tung: "O poder político nasce do cano de uma arma."

Pol Pot: "Não tenho medo de morrer. O que me preocupa é a possibilidade de trair o que é verdadeiro."

Emílio Garrastazu Médici: "A segurança nacional não admite complacências."

Augusto Pinochet: "Para fazer o Chile grande novamente, é necessário eliminar os marxistas."

Slobodan Milosevic: "A Iugoslávia será um Estado unitário. Não haverá concessões."

Essas poucas citações oferecem uma visão direta das atitudes e políticas de cada líder, fornecendo um retrato claro de como exerciam o poder e justificavam suas ações. Cada um deles deixou um legado marcante em sua época, moldando a história de seus países de maneiras distintas, mas muitas vezes igualmente controversas.

3. A Influência da Revolução Russa e Stalin nos Líderes Autoritários

A Revolução Russa de 1917 e o subsequente regime de Joseph Stalin tiveram um impacto profundo na política mundial do século XX, influenciando diretamente muitos dos líderes autoritários mencionados. A ascensão de Stalin ao poder representou uma nova forma de autoritarismo que reverberou em diferentes partes do mundo.

A Revolução Russa foi um divisor de águas, inaugurando uma era de transformações sociais e políticas. Líderes como Mao Tsé-Tung e Pol Pot, por exemplo, foram influenciados pela dinâmica revolucionária russa em seus próprios movimentos. Mao, por meio da Revolução Comunista Chinesa, buscou emular a experiência bolchevique na China, enquanto Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, procurou instaurar uma utopia agrária seguindo um modelo de transformação radical semelhante. Joseph Stalin, por sua vez, consolidou um regime autoritário e totalitário na União Soviética. Seu governo foi marcado pela repressão sistemática, coletivização forçada da agricultura e industrialização em larga escala. A figura de Stalin e seu estilo de liderança centralizada deixaram um legado duradouro, servindo de modelo para líderes posteriores em busca de controle absoluto.

Líderes como Emílio Garrastazu Médici e Augusto Pinochet, que ascenderam ao poder por meio de golpes militares, foram influenciados pela polarização ideológica da Guerra Fria, onde a União Soviética e os Estados Unidos representavam os principais polos de poder. O temor ao comunismo e a busca por estabilidade levaram esses líderes a adotar políticas repressivas e a manter uma firme orientação anticomunista.

Além disso, a Revolução Russa e o regime de Stalin serviram como exemplo para líderes que buscavam consolidar seu poder por meio da propaganda e da repressão. O culto à personalidade e a construção de uma narrativa oficial foram estratégias empregadas por Stalin e posteriormente replicadas em diferentes contextos.

Portanto, a Revolução Russa e o regime de Stalin desempenharam um papel fundamental na configuração do autoritarismo no século XX. Suas influências se estenderam a líderes de diferentes partes do mundo, moldando a maneira como abordaram o exercício do poder e a repressão de opositores. Essa herança russa é uma parte essencial do pano de fundo histórico que contribuiu para a emergência e consolidação de muitos dos líderes autoritários que marcaram o século passado.

4. Napoleão Bonaparte e a Semelhança com Líderes Autoritários

Napoleão Bonaparte, o famoso líder militar e político francês do século XIX, compartilha diversas semelhanças com os líderes autoritários mencionados. Suas ações e mentalidade demonstram paralelos notáveis com as estratégias empregadas por líderes alvo deste texto.

Em primeiro lugar, Napoleão também exibiu uma inclinação marcante para a centralização do poder. Sua ascensão ao cargo de Primeiro Cônsul e posteriormente Imperador da França lhe conferiu um poder considerável, e ele governou de maneira autoritária, tomando decisões de forma unilateral e controlando os principais órgãos do Estado. Assim como outros líderes autoritários, Napoleão também foi um mestre da propaganda e do culto à personalidade. Ele cuidadosamente construiu sua imagem como um líder carismático e visionário, cujas decisões eram vistas como inquestionáveis. Sua habilidade de mobilizar apoio popular e militar baseava-se, em parte, nessa aura de liderança inigualável. Além disso, Napoleão era conhecido por sua ambição expansionista, buscando expandir o Império Francês por meio de conquistas militares. Essa busca por hegemonia e controle territorial é uma característica compartilhada com líderes como Mao Tsé-Tung, que também visavam expandir suas influências e ideologias para além das fronteiras de seus países. No entanto, assim como outros líderes autoritários, Napoleão também recorreu à repressão como uma ferramenta para manter o controle. Ele instituiu leis e políticas que suprimiram a oposição e garantiram a estabilidade de seu regime.

A semelhança mais marcante talvez resida na capacidade de Napoleão de mobilizar e utilizar o exército como instrumento de poder e manutenção do controle. Sua habilidade estratégica e a lealdade de suas tropas foram fundamentais para suas conquistas e para manter a estabilidade em meio a desafios internos e externos.

Portanto, a postura e as ações de Napoleão Bonaparte apresentam uma série de semelhanças com os líderes autoritários mencionados. Sua habilidade de centralizar o poder, sua ambição expansionista, o uso da propaganda e a disposição para recorrer à repressão são traços que ecoam em muitos dos líderes autoritários que marcaram o século XX. Napoleão, de certa forma, pode ser considerado um precursor de uma longa linhagem de líderes que exerceram o poder de maneira autoritária e centralizada.

Com humildade, almejo que esta análise possa alcançar cada leitor, contribuindo para o enriquecimento de nosso entendimento individual e coletivo sobre os complexos meandros do poder autoritário e suas ramificações. Agradeço a George Orwell por legar ao mundo uma obra de tal magnitude e profundidade, que nos desafia a refletir sobre os eventos históricos e a natureza humana de maneira perspicaz e esclarecedora. Sua capacidade de transcender o tempo e o espaço através da literatura é um presente inestimável para todos os que buscam compreender e aprender com a história.


Professor Fagundes.


Bibliografia:

1. Orwell, G. (1945). A Revolução dos Bichos. Editora Companhia das Letras.

2. Alves, R. (2008). Médici: A construção do autoritarismo. Editora Civilização Brasileira.



Obs. Vamos ler, curtir, compartilhar. Façam observações, comentários ou críticas neste espaço para que o autor se manifeste diretamente com o leitor.

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1 Comment


naoperes
naoperes
Oct 14, 2023

Se me permite o autor do texto, Prof Fagundes, é bem complicada esta comparação...👇🏽


"Além disso, a Revolução Russa e o regime de Stalin serviram como exemplo para líderes que buscavam consolidar seu poder por meio da propaganda e da repressão. O culto à personalidade e a construção de uma narrativa oficial foram estratégias empregadas por Stalin e posteriormente replicadas em diferentes contextos. Portanto, a Revolução Russa e o regime de Stalin desempenharam um papel fundamental na configuração do autoritarismo no século XX."

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