A HISTÓRIA OS ABSOLVERÁ, ALDO DOS SANTOS E CAMILA ALVES.
- Aldo Santos
- 20 de jul.
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Atualizado: 21 de jul.

Diego Cana***
O primeiro contato que tive com o nome Aldo Santos foi nas eleições municipais de 2016, na ocasião de sua candidatura a prefeito de São Bernardo do Campo pelo Partido Socialismo e Liberdade. Nutria grande simpatia por aquele partido desde as eleições presidenciais de 2014, quando Luciana Genro se lançou como candidata. Por essa razão, seguindo a convicção ideológica que aos poucos se consolidava em mim, mesmo sem saber muito bem de quem se tratava dei meu voto ao professor Aldo.
A conjuntura nacional daquele momento estava atravessada pela ascensão das forças reacionárias, vivíamos o auge do antipetismo, em uma atmosfera crescente de intolerância e hostilidade abertas a tudo que remetesse à esquerda. Aquele foi o ano do golpe contra a presidenta Dilma Roussef, eternizado na memória coletiva pelos panelaços ensurdecedores que ocorriam nos bairros da classe média, pelas multidões com camisas da CBF que ocupavam a Av. Paulista, arrebanhadas em torno de um gigante pato da FIESP como adoradores de um ídolo dourado, louvando a Sergio Moro como um santo paladino da justiça. Era a própria imagem renovada das antigas passeatas dos camisas-verdes da Ação Integralista Brasileira anos 30. Não à toa, era o momento onde os discursos reacionários passaram a ganhar cada vez mais espaço, com figuras da extrema-direita começando a se projetar no cenário nacional.
Poucos dias depois das eleições, tive um primeiro contato com Aldo em uma atividade na subsede da Apeoesp de São Bernardo do Campo, um debate público promovido por algumas professoras do PSOL a respeito do famigerado projeto Escola Sem Partido, uma espécie de macarthismo reprocessado em versão brasileira que muito contribuiu para ressuscitar no imaginário conservador o assombroso fantasma do comunismo - e claro, associá-lo ao petismo. Era um sábado qualquer e a primeira vez que entrei naquele sindicato, que se tornaria um lugar muito constante na minha vida. A exposição alertava sobre o perigo daquele projeto e discutia formas de combatê-lo, sendo seguida de um sarau, com exposições artísticas, poemas e música.
Outro momento que me encontrei com Aldo foi em 28 abril de 2017, dia da greve geral contra a Reforma Trabalhista do governo Temer. Soube através do meu amigo Barata que a subsede da Apeoesp SBC estava oferecendo carona para quem fosse ao Largo da Batata, na capital, onde aconteceria a concentração do ato das centrais sindicais, de onde marchariamos até a residência do então presidente golpista da República. Fomos até lá, Aldo estava com tantos outros companheiros do sindicato ajudando a distribuir as pessoas nos veículos disponíveis. Naquele dia, notei que aquele senhor a quem tinha dado meu voto no ano anterior era um militante bastante ativo nas causas sociais.
Em fevereiro do ano seguinte, havia sido informado por uma amiga, a Nianza, que na Apeoesp SBC - novamente! - havia um cursinho popular preparatório para pessoas que quisessem prestar vestibular. Eu, que há alguns anos vinha tentando a sorte fazendo o ENEM, não precisei pensar muito para ir ver. Cheguei lá em uma noite qualquer durante a semana para saber daquela iniciativa e encontrei o professor Aldo, fundador, professor e coordenador do Cursinho Passo a Frente. Ele me explicou como funcionavam as aulas, e logo comecei a frequentá-las.
A respeito de 2018, foi sem dúvidas um dos mais conturbados de nossa história recente. Em março, o Brasil foi abalado pelo atroz assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes; em abril, a infame e midiática campanha lavajatista contra Lula o levou a prisão, retirando-o das eleições; em outubro, sintetizando as trajédias daquele ano e anunciando as novas que viriam, a vitória eleitoral de Bolsonaro. A estas tragédias, somou-se também a sentença que condenou Aldo Santos e Camila Alves.
Não por acaso, foi em meio a este maremoto que comecei a me envolver com a militância política de fato, e Aldo teve nisto um papel central. Nas eleições daquele ano, ele se lançou a candidato para deputado federal. Me envolvi de cabeça na sua campanha junto da Thais e do Ted, amigos que também estudavam no Cursinho, e do também amigo Albert, que era nosso professor. Acumulamos derrotas. Jair Bolsonaro e João Doria, eleitos respectivamente para presidente da República e governador de São Paulo, além de um Congresso intragavelmente reacionário. E como se não fosse o bastante, na reta final do primeiro turno, viemos a saber da condenação de nosso professor camarada.
A história desta situação se inicia em 18 de julho de 2003, quando o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ocupou um terreno da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Aldo, que era então vereador pelo PT e já acumulava um histórico de lutas junto aos movimentos de moradia, se mostrou solidário àquela iniciativa, disponibilizando seu mandato para ajudar acampados que precisavam de assistência médica. Camila era uma jovem liderança do MTST, e uma das coordenadoras da ocupação que levou o nome de Acampamento Santo Dias, em homenagem ao operário martirizado pela repressão da ditadura. A ocupação durou menos de um mês, ambos receberam processos que se prolongaram por quase quinze anos, sendo condenados, sem terem cometido crime algum, a perder seus direitos políticos e a pagar multas estratosféricas.
Mas o momento mais dramático desta trama veio na manhã do dia 9 de fevereiro deste ano. Era um domingo, onde fazíamos uma das tradicionais formações virtuais políticas do Enfrente!. O tema da discussão era uma Ação Cívil Pública feita pelo Dr. Jaime, propondo renomear logradouros em SBC que homenageiam o fascismo italiano e a ditadura militar brasileira. Jaime e eu fizemos a exposição, onde contribui abordando a relação histórica que a cidade e o ABCDMRR possuem com o nazifascismo. Ao encerramento da atividade, Aldo nos informou que por volta das 08h da manhã, dois oficiais de justiça haviam ido a sua casa para lhe informar que seu carro e sua casa estavam sendo penhorados - para saldar a multa que hoje chega a mais de R$ 1,5 milhão - e seu nome incluso no Cadastro Nacional de Condenados.
Desde aquele dia, estivemos levando à frente a denúncia por tamanha injustiça. Foram reuniões, panfletagens, recolhimento de assinaturas, encontros e plenárias, notas e moções de repúdio em congressos sindicais, e também a criação do Comitê de Solidariedade a Aldo Santos e Camila Alves, onde a companheira Neuza tem estado à frente. O caso foi levado à OEA, e tem-se tentado também fazê-lo chegar ao presidente Lula, além do esforço judicial movido pelo Dr Jaime para que seja feita a revisão do processo. Somente este ano tive a oportunidade de conhecer Camila pessoalmente, durante uma reunião do Comitê. Foi uma sensação singular vê-la pela primeira vez depois de anos divulgando abaixo-assinados com seu nome. Conversando com ela, simpatizei com sua pessoa tanto quanto pela sua história em Santo Dias.
Creio que a injustiça é, de todos males existentes, aquele que antecipa os demais. Me incomodar com a injustiça foi o que me levou um dia a querer entender por que as coisas são como são, e por entendê-las, inconformado, desejar mudanças reais no mundo. A injustiça que todos os dias brutaliza, maltrata e assassina pessoas, a injustiça que rouba sonhos e nos retira a própria consciência, que fabrica desigualdades e a falta de oportunidades, que faz sofrer a nós próprios e as pessoas que amamos, e também aquelas pessoas que nunca conheceremos, que apenas podemos imaginar ou saber da existência pelos noticiários que transmitem em todo o mundo a dor e o sofrimento das vítimas da guerra, das catástrofes climáticas, da fome, da intolerância, em suma, da injustiça construída por um sistema que se realiza na desgraça do outro.
Aldo tem feito da luta contra a injustiça uma razão de vida. É daqueles imprescindíveis, como dizia Bertold Brecht, pois não lutam um ou vários dias, mas sim a vida toda. E assim será por todos os anos que viver. É uma odiosa e perversa ironia que alguém que tanto lutou para que outras pessoas tivessem garantido o direito humano universal de possuir uma casa, esteja sendo por isso condenado a perder a sua. Esta condenação aproxima nossa Justiça a de um Estado de exceção, pois nem Aldo nem Camila cometeram qualquer crime contra qualquer ser humano ou nação, além de negar, como escrito na própria Constituição de 1988, o direito social de todo cidadão a ter moradia.
Acompanhar de perto esta situação gera muitas vezes angústia, mas acredito na tradição de luta dos povos e das classes oprimidas como fonte de força necessária para lidar com isto. Em meio a esta ingrata situação, me veio um certo dia a imagem da luta dos revolucionários cubanos que, em 26 de julho de 1953, promoveram a tentativa de assalto ao quartel Moncada, com o propósito de irromper uma insurreição popular para derrubar a ditadura de Fulgêncio Baptista. Mal sucedida, os corajosos rebeldes foram presos, muitos sendo torturados e mortos. O líder daquela aventura, o jovem advogado Fidel Castro, foi levado aos tribunais em 16 de outubro daquele ano. Impedido de ter acesso aos seus advogados, decidiu construir sua própria defesa, e o discurso que proferiu perante seus algozes tornou aquela cena inquisitorial em um dos momentos mais célebres da história. Em sua fala, acusava a ditadura de cometer toda leva de crimes contra seu próprio povo, retomando a tradição iluminista que reconhecia aos povos o direito de lutar contra as tiranias que os oprimem, e com a convicção absoluta de que seu ato de bravura, junto daqueles companheiros e companheiras tinha dado o passo definitivo para a libertação do povo cubano, encerrava sua defesa, quase que profeticamente, dizendo "condenem-me, não importa , a história me absolverá".
Aquele discurso foi transformado em panfleto, convertendo-se em arma contra Baptista e sua ditadura servil do imperialismo yankee, que seria derrubada em 1959 na mais icônica das revoluções latino-americanas de nosso tempo. Cinquenta anos depois do ataque a Moncada, as bandeiras do Acampamento Santo Dias tremulavam na maior ocupação urbana do Brasil. Certamente, os tempos atuais são bem diferentes daqueles, onde as revoluções eram frequentes e a construção do socialismo uma realidade em quase todos os continentes. No século XXI, nos vemos muitas vezes desprovidos de utopias, imersos em uma realidade que ao invés de sonhos nos provoca desesperança, que drena a nossa crença de que um mundo diferente seja possível. O horizonte revolucionário necessita de ser resgatado como a estrela que pode guiar a humanidade para transformar o mundo, pois a realidade social e econômica deteriorada em que nos encontramos não pode oferecer mais do que um futuro de perpetuação das crises humanitárias, de apocalipse ambiental e guerras prolongadas. Em uma conjuntura como a atual os desafios são gigantes, mas devemos nos inspirar no exemplo daqueles que fizeram e fazem do combate à injustiça sua vocação. Aldo está sem dúvida entre estes, que lutam pelo que o mundo tem de melhor, e que acreditam que o futuro nos pertencerá um dia. Professor de cursinho e de luta, com quem tanto aprendi e certamente continuarei a aprender, tenho sincero orgulho de poder lutar ao seu lado.
Conversando com Aldo poucos dias depois da fatídica notícia, disse, buscando animá-lo, que ser condenado pela justiça burguesa era uma grande marca para o seu currículo de revolucionário. Afinal, que somos nós, filhos e filhas da classe trabalhadora, dos povos oprimidos e explorados, senão os próprios condenados da Terra, como gravado nos versos em francês de A Internacional, de onde Frantz Fanon os pegou emprestado para batizar seu célebre trabalho. Somos aqueles cujo sangue e suor criaram este mundo que um dia haverá de ser verdadeiramente livre de toda forma de opressão, exploração e injustiças. Dito isto, tenho certeza que podemos afirmar perante o mundo: aos camaradas Aldo Santos e Camila Alves, não importa que os condenem, a história os absolverá.
São Bernardo do Campo, 18 de julho de 2025.
22º aniversário do Acampamento Santo Dias.
Diego Cana - Professor de História na Rede Pública Estadual-SP, professor/coordenador do Cursinho Passo a Frente, membro do Diretório municipal do Psol e e Vice - coordenador da subsede da Apeoesp/sbc
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