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A Dualidade da Educação Brasileira: Liberdade para os Ricos, Obediência para os Pobres

Foto do escritor: Aldo Santos
Aldo Santos
24 de mar. de 2025
2 min de leitura

Atualizado: 1 de abr. de 2025


Professor Fagundes***



A respeito da implantação das escolas militares no estado de São Paulo e pelo Brasil afora, vejo como acertadas as palavras de Darcy Ribeiro quando ele afirmou que "A crise da educação brasileira não é crise; é projeto". Essa frase, tão contundente, revela uma triste realidade: a educação no Brasil não é negligenciada por acaso, mas sim por uma escolha política e social que perpetua desigualdades.

Enquanto os filhos das elites estudam em escolas que adotam métodos pedagógicos cientificamente reconhecidos e humanistas — como os de Maria Montessori, Jean Piaget, Lev Vygotsky, Rudolf Steiner (Waldorf) e Paulo Freire —, os filhos das classes mais pobres são direcionados para escolas com métodos militares. Essa dualidade não é mera coincidência, mas parte de um projeto que reforça a divisão de classes.

Nas escolas das elites, os alunos são incentivados a desenvolver a criatividade, a liberdade de pensamento, o senso crítico, a subjetividade, o raciocínio lógico e a liderança. Essas habilidades são essenciais para formar indivíduos autônomos, capazes de questionar, inovar e assumir posições de destaque na sociedade. Já nas escolas militares, os alunos são submetidos a um regime de hierarquia rígida, onde aprendem, acima de tudo, a obedecer e a se calar. A liberdade de expressão é limitada: vestimentas, cortes de cabelo, acessórios e até mesmo a forma de se comunicar são controlados.

Essa diferença não é casual. Ela reflete um sistema que busca manter os ricos em posições de poder e os pobres em papéis subalternos. Enquanto os primeiros são preparados para liderar e tomar decisões, os segundos são treinados para seguir ordens e se conformar com sua condição. É uma estratégia que perpetua a desigualdade social e impede a mobilidade ascendente.

Nunca esqueci da fala da minha amiga Fatima Leal, que certa vez disse: "Meu amigo, o projeto tá dado". Essa frase ecoa em minha mente como um alerta. O projeto de educação que temos hoje não é falho por incompetência, mas por design. Ele foi pensado para manter as estruturas de poder intactas, garantindo que poucos continuem no topo e muitos permaneçam na base.

A implantação das escolas militares é apenas mais um capítulo desse projeto. Em vez de investir em uma educação pública de qualidade, que promova a autonomia, a crítica e a transformação social, opta-se por um modelo que reforça a disciplina e a obediência, mas não necessariamente a formação cidadã. Enquanto isso, a verdadeira crise — a crise de acesso a uma educação libertadora e igualitária — continua sendo ignorada. Darcy Ribeiro tinha razão:  não se trata de uma crise, mas de um projeto. E cabe a nós questionar, resistir e lutar por uma educação que, de fato, liberte e transforme.


Professor Fagundes. Militante da Apeoesp, ativista dos Direitos Humanos

 

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