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Vila Lulaldo, Histórias e Memórias!




Por: Rogério do Nascimento

São Paulo _ SP ***

Para APROFFIB.


Apenso Crítico sobre as Histórias e Memórias de Luta Social pelo direito à Moradia e à Cidade, 34 anos depois : Vila Lulaldo - São Bernardo do Campo



Sobre a menção do Prof. Aldo ao companheiro José de Arimatéia e companheiros (as) da luta, quero chamar a atenção para a importância da análise histórica que, junto à memória de luta e paixões, também acende nossas memórias e paixões pela luta e nos mostra, acima de tudo, os ciclos que comportam a intrincada história social: com avanços, mas também retrocessos amargos!

Da encarniçada luta que se trava no campo intelectual (Filosofias de Esquerda e de Direita), rememoro especificamente, para ser brevíssimo, Milton Santos, Ermínia Maricato e Guilherme Boulos. Os dois primeiros intelectuais, que refletem pelo viés da crítica ao sistema do Capital, a lógica da financeirização dos espaços e territórios sociais e, o último como intelectual ativista e atualmente Deputado Federal pelo PSOL, conhecido nacional e internacionalmente pela defesa da moradia popular.

A verdadeira reforma agrária e urbana pra valer, sob controle dos trabalhadores, está alinhada com a visão de Boulos (2012) e do MTST, do MST e seus líderes, tanto quanto de Santos (1993), que entendia a globalização dos espaços urbanos sobre as relações entre sociedade e espaço. Milton Santos defendia uma abordagem crítica ao sistema capitalista e aos pressupostos teóricos predominantes na ciência geográfica de seu tempo.

Maricato (1996), uma das mais importantes urbanistas brasileiras, se debruça sobre o estudo da habitação e da cidade. Ela argumenta que: o direito à moradia na cidade, sem o direito à cidade, não existe! O direito à cidade é um pressuposto cidadão que a “cidadania” de papel e “cidadania” por CEP que é a geoespacialidade burguesa brasileira atual e que não comporta na realidade, quando muito, comporta na formalidade burocrática das papeladas oficiais dos órgãos públicos ou políticas habitacionais.

Todos os três pensadores (as) que cito acima estão alinhados de alguma forma e defendem a redistribuição de terras e o controle dos trabalhadores sobre essas terras, que põem ao arrepio as classes no poder e controle da especulação urbano-territorial (Construtoras, Incorporadoras, Corretoras de Imóveis, Empreiteiras etc.).

A persistência da luta, após 34 anos da ocupação original na Vila Lulaldo em São Bernardo do Campo-SP, reflete a resistência e a determinação da classe trabalhadora sem teto. Porém, essa resistência determinativa, de alguma forma organizada organicamente das trabalhadoras (es) suas famílias e familiares, como pensava e preconizava Gramsci (2001), qual seja: a desumanidade da lógica do capital ante as classes trabalhadoras impondo cotidianamente uma dor comum une essas pessoas não como somente indivíduos, atomizados e portadores de uma história única, mas como uma categoria social (classe).

Aglutinam intelectuais orgânicos em torno dessa situação e que são da classe trabalhadora ou optam por ela e estão, naquele momento, compondo seus quadros e bases e de certa forma estão em condições intelectuais de voltar-se para estas bases sociais e instruí-las ao empoderamento e ao combate contra as inúmeras artimanhas da política dominante.

Todo esse processo de sociabilidade anti-lógica do capital visa não só a construção de uma sociedade mais “ajustada” e equitativa para as classes trabalhadoras do campo e da cidade do prisma da distribuição desses bens sociais que a própria massa ativa de trabalhadores transfere para o Estado na forma de tributos de renda entre outros, e no plano das mentalidades há uma construção crítica das subjetividades de cada sujeito participante desse processo e que é capaz de persistir como um grande aprendizado em suas histórias de vida e suas memórias de luta que podem ser ensinadas e replicadas no tempo e nos espaços.

Mas, pensar com Gramsci é pensar com Marx, há que se estar atentos como luta temporária e provisória na e pela política no campo burguês do Estado [ pela política formal dos gabinetes e plenárias ] sabendo de seus limites e potencialidades, a mesma, pelo crivo da democracia do trabalho, desata algumas amarras do politicismo [ stricto sensu ] para, ganhar potência de política como relações humanas [ lato sensu ] em suas próprias contradições históricas e - pelos sujeitos em busca de cada vez mais consciência desses processos e constantemente interessados nisso - a cada tempo histórico descortinar a lógica humano-destrutiva do Capital de hoje e de sempre e é quando pela política informal das classes trabalhadoras organicamente atuantes tomam para si temporariamente algum controle sobre as políticas sociais do Estado Burguês que, e agora cada vez mais reativo e mesquinho em seus espectros de direita e à direita, nesta onda neoliberal impõem tragédias sem limite à nossa classe que tudo produz e quase nada usufrui!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BOULOS, Guilherme Castro. Por que ocupamos?. Grupo Editorial Scortecci, 2012.

COUTINHO, Carlos Nelson. Cadernos do cárcere (Vol. 2): Os intelectuais, o princípio educativo, jornalismo. Ed. Civilização Brasileira, 2001.

MARICATO, Ermínia. Metrópole na periferia do capitalismo: ilegalidade, desigualdade e violência. Ed. HUCITEC Ltda., 1996.

SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. Ed HUCITEC Ltda., 1993.



Rogério do Nascimento. É professor de filosofia da rede de ensino público há 27 anos.

Mora há mais de 40 anos na cidade de São Paulo em especial no bairro de São Miguel Paulista. É formado em Filosofia e Letras, especialização em Artes Visuais e História da Arte. Filho de pai nordestino, metalúrgico de profissão na região de Guarulhos e mãe paulista de enorme garra e coração.

A luta coletiva de meus pais pela moradia e melhorias nas vilas e ruas dos bairros carentes do Parque Paulistano, nos idos anos 1980, me legaram histórias, memórias e paixões daquelas lutas por uma vida e condições mais dignas para as famílias da classe trabalhadora por parte dos poderes públicos.

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