Uma crítica onírica


Por: José Burato***



Tive um sonho horrível!

Nele, caminhava angustiado, abalado por questões políticas que julgava desnecessárias “nessa altura do campeonato”, por tudo que já vivemos. Mas a questão que mais me afetava era a possibilidade de o partido que defendo confirmar um antigo e conhecido liberal como vice em sua chapa para a campanha eleitoral para o governo do país – é que esse partido que defendo se pretende antiliberal.

Sonho horrível? Sonhos se referem às coisas que julgamos boas, agradáveis, prazerosas. Não foi um sonho, foi um pesadelo, só mais um pesadelo!

Então, nesse pesadelo, pensava num argumento incontestável que pudesse dissuadir o grande nome do partido – o candidato natural e inquestionável para a militância do partido e para muitos militantes de outros partidos de esquerda também, e tido como o único capaz de vencer o “corpo estranho” à democracia que ora ocupa a presidência da república – a mudar de ideia e escolher um (a) candidato (a) a altura da ideologia partidária, alguém que pudéssemos confiar e ter orgulho, alguém que não atentasse contra a lógica ideológica dos trabalhadores. O pesadelo foi tão pesado que o nome para vice era simplesmente... Alckmin!

Mas o que dizer? A angústia aumentava na medida em que pensar em argumentos me parecia um absurdo em si. Por que não conseguem ver o óbvio? A história recente já não demonstrou que essas conciliações são impraticáveis? Como conciliar os interesses da classe trabalhadora explorada com os interesses da classe exploradora da força de trabalho? Já não vimos que o resultado disso é o golpe aos nossos interesses?

Lembrei-me das antigas campanhas eleitorais, quando junto com outros militantes saíamos às ruas com bandeiras vermelhas, não apenas na tentativa de convencer a população de que nossos candidatos eram os melhores para os municípios, estados ou país, mas também que os liberais representavam atrasos, perigo às conquistas e interesses da classe trabalhadora. Dizíamos, por exemplo, que Alckmin estava acabando com o Estado de São Paulo, razão pela qual deveria ser substituído pelo nosso candidato. As pessoas que nos ouviam muitas vezes concordavam, fortaleciam nossos discursos eleitorais.

Ora, o discurso em uma campanha eleitoral é importante, mais que isso, fundamental. Não pode haver contradições nos discursos eleitorais, muito menos no posicionamento político-ideológico, porque isso deixa o eleitorado inseguro ou desconfiado.

Agora tudo estava claro, perguntaria ao Lula – lembre-se que estava num pesadelo – sobre o discurso apropriado para justificar uma escolha tão contraditória. Lula, o que devo dizer aos eleitores, aos amigos e familiares? Lula, como justificar que o discurso de outrora era verdadeiro apenas naquela época? Lula, como olhar nos olhos de alguém e dizer que aquele que não servia para governar o Estado de São Paulo tempos atrás hoje é o melhor nome para a vice-presidência do Brasil?

De repente a angustia aumentou, tinha encontrado um argumento que julgava simples, mas forte. Entretanto, havia uma duvida: eu teria que me dirigir a um grande líder ou a um grande ídolo? Essa questão me pereceu pior que a primeira. Se for a um líder, pensei, haverá discussão sensata e possibilidades para a reflexão e a esperada mudança de rumos, porque basicamente é assim que um líder se comporta; mas se for a um ídolo...

Digo ídolo, porque mito já existe para os conservadores e seus asseclas, essa gente precisa disso, nós não.

Um ídolo costuma ter ilusões, a maior delas é a de que é insubstituível, que é o máximo, e que a sua luz é inofuscável. Um ídolo pensa que a sua força vem de si mesmo, mas não vem. A força de um ídolo vem dos idólatras, sem os últimos não há o primeiro.

Parece que ficou mais fácil agora, continuava eu no solilóquio, porque será aos idólatras que deverei me dirigir e não mais ao ídolo que não daria a mínima importância para qualquer argumento, pois quando um ídolo decide, está decidido.

Novo terror me tomou: como argumentar com idólatras? Como trazer um idólatra para a realidade, como fazê-lo raciocinar? Como convencer alguém de que o seu ídolo está insistindo num erro histórico? Que desânimo!

Nesse pesadelo eu passava pelas multidões entusiasmadas que bradavam vitória antes do tempo, tão iludidas quanto o ídolo, essas multidões se entregavam a ele religiosamente, numa fé cega impressionante. Não me ouvirão, considerei, é inútil tentar. Será como sempre, lembrei, quando perderem os argumentos, passarão à hostilidade.

Acordei atordoado, que pesadelo miserável!

Mas é claro, foi só mais um pesadelo decorrente de algum Temor, um novo Temer, talvez. Esse pesadelo nunca será real, porque temos um grande e sensato líder e uma militância racional, não idólatra. Quem precisa de mitos e ídolos são os adversários dos interesses da classe trabalhadora.



José Burato - Doutorando em Economia Política Mundial

Militante da Articulação de Esquerda-PT

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