VILA LULALDO: 32 anos de lutas e saudades dos que já morreram!

Atualizado: 9 de dez. de 2021


Por: Aldo Santos*


Em dezembro de 1989, o tempo estava chuvoso e com medo de um grande desastre, um grupo de moradores do Jurubeba ocupou a sedinha do Jardim Jussara, pois estavam na iminência de morrerem soterrados.


Ao assumir o mandato de Vereador, em primeiro de janeiro de 1989, me deparei com muitas lutas que estavam em curso e acabei por adotar grande parte destas.


Após várias reuniões com moradores e lideranças do Jurubeba e com a presença permanente na área do Assessor do gabinete, companheiro Natanael Júlio da Silva(TANÁ), os moradores, sem alternativa, buscaram o caminho da ocupação de uma área que ficava próxima da moradias deles e sem nenhum aparente risco.


Lembro-me como se fosse hoje, por volta das 12 horas recebi um telefonema do Taná dando conta que o morro estava descendo.


Tinha tomado um banho, pequei meu carro e fui para a área. Tudo foi planejado, como o tamanho dos terrenos, as ruas, os critérios para participar da ocupação e a pequena infraestrutura necessária para uma atividade daquela envergadura.

O final da tarde e da noite foi longo. Acabamos por volta das 3 horas da manhã o primeiro barraco da companheira Emília, que foi o ponto de encontro para fazer um café, e de vez em quando uma pinguinha.


Era uma valentia só, com o Agenor, Barba, Taná, Emília e tantas outras pessoas que se somaram a esta grande ocupação em plena gestão do PT.


O Subprefeito do Riacho Grande era o companheiro Chicão que foi o primeiro subprefeito eleito diretamente pelos moradores, e diante da ocupação não teve dúvida em apoiar a mesma. A Angélica, mulher do subprefeito, ajudava na medição dos terrenos com um barbante, definindo lugares para evitar os costumeiros aglomerados humanos.



Foi um período de muita tensão, ameaças, enfrentamentos, uma vez que estávamos numa gestão do PT e nosso mandato foi ameaçado de cassação por apoiar os sem tetos. Mas reagimos a tudo e a todos que tentaram nos derrubar.


Foram muitas passeatas, fechamento da Anchieta, manifestação e ocupação na prefeitura, travando os elevadores não permitindo subida nem decida de funcionários do prédio, e o prefeito escapando por uma rota de fuga.


Era tempo de guerra. Era o povo enfrentado e lutando desesperadamente por ter apenas um e necessário pedaço de terra para morar.

Testemunhei muitas pessoas destemidas que assumiram a luta de corpo e alma e estavam organizados e dispostos para o que der e vier.


O subprefeito do Riacho Grande foi exonerado pelo Maurício Soares, mas mesmo assim, o movimento continuou firme e forte.


A diferença desta ocupação é que os moradores ocuparam para morar, ficar e resistir e não apenas para negociar com órgãos sucessivos governos dentro da institucionalidade. Era uma experiência de confronto efetivo com um dos pilares do capitalismo que é a propriedade privada. Ou seja, efetiva reforma urbana sob controle dos trabalhadores.


Hoje temos uma bonita Vila consolidada, cerca de 500 casas ao todo, e cerca de quase 3 mil pessoas em toda comunidade.


Quando cheguei no evento deste domingo, na sede da entidade, dia 05/12/2021, recebi um abraço do seu Valdemar, um dos fundadores da entidade que orgulhosamente exibiu o registro de seu terreno das mãos do saudoso companheiro Barba. Mesmo em tempo de pandemia, confesso que o abraço sincero de um militante é como o abraço de um irmão ou irmã.


Sentindo a ausência do companheiro José Arimatéia na atividade, dei um pulo na sua casa.

Valentemente, ele vem enfrentando algumas enfermidades com muita dignidade. O pobre é digno até no enfrentamento a doenças severas.

Conversamos bastante, dei a ele meu último livro: “Rumo a estação Catanduva”, tiramos uma foto e para homenagear os 32 anos de vida de existência da Vila, fizemos um levantamento das pessoas que fizeram e fazem parte da luta de ocupação da Vila , bem como os que posteriormente ajudaram na consolidação da mesma.



Trinta e dois anos depois, queremos externar essas reflexões aos saudosos companheiros/as: Dona Emília, a autora da proposta de nome que foi aprovada em assembleia, em homenagem a LULA e ao Vereador Aldo, que juntando ficou - LULALDO, proposta defendida em assembleia e dentre outras, a sua foi vencedora. O Agenor, A Hilma, o Barba (grande líder popular e uma figura determinante nesta ocupação), o João do DAE(João Preto), Zé Rufino, José Batista(Gazo), Dona Getulina, Joselita, Maria Vieira, Maria Joaquina, Maria Helenice, Maria de Lourdes(( Dona Maria Mãe de Veva), além do inesquecível apoio do Natanael Júlio da Silva (TANÁ), Padre Maon e do saudoso Wagner Lino.


Além dos nomes constantes cima, o companheiro Zé Arimateia me enviou outras pessoas que contribuíram direta ou indiretamente com a ocupação da nossa Vila: Manuel Amaral,Maurício Amaral, Dona Lucinda,Domingos Novaes,JoveanoNovaes,Erivaldo Vavá, Luis Lopes(Lulinha), Rudinei Pereira, Pedro Joaquim,Anastácio (Tasso),Creusa Tasso,Roberto Alves,Compadre, Edinardo/Nilda,Dona Maria Mãe de Veva,Lourival Santos (BIRO BAR),Urias Rosa (BIRO BIRO),Elias Monteiro,Zilda Lopes, Izabel Soares,Gentil Gomes, José do Carmo(BABÁ),Johan Alcântara (Joãozeira),Renato Neves,Antonio Pereira(Carreiro),Helena F. dos Santos,Ernesto Ferreira,Jorge dos Santos, Edvaldo Amorim, Antonio Carlos (Tonio Neguinho), Juliano(EMBASSADO)


Cheguei quase no final da missa, onde o padre falou da importância da vida comunitária, saudou os 32 anos da Vila Lulaldo, desejando muitas anos de vida sempre organizados e fraternos.


O Presidente da Associação dos moradores, companheiro Ivo, também fez uso da palavra, saudando os presentes, agradecendo a presença de todos e todas, e, coletivamente, cantamos os parabéns pelo aniversario da Vila e a Marisinha organizou a distribuição do bolo juntamente com os demais membros da Diretoria.


Logo após, tiramos uma foto com parte da diretoria e saímos convictos que lutar vale a pena.


É uma experiência exitosa , pois sabemos que, quando o poder publico não responde as demandas sociais, o povo aponta os caminhos e a solução para acabar com o sofrimento “ eteno da nossa classe”.


Vários dos lutadores desta ocupação já morreram, mas a valentia dos mesmos continuam vivas em nossas memórias e este exemplo de ocupação deve servir de estímulo para outras organizações e luta pelo direito à moradia, à dignidade humana e o sonho por um mundo igualitário para todos e todas.


Lutar, resistir e vencer é preciso!



Parabéns Vila LulAldo!








Aldo Santos- Ex-vereador em SBCampo, Militante d do sindicato dos professores, Dirigente da Aproffesp/Aproffib e membro do Psol.













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