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Rumo à Estação Catanduva


Dil Gonçalves***


Li com muito gosto o livro Rumo à Estação Catanduva, de Aldo Santos. Não é uma ficção, pois se trata de um relato dolorido de um momento singular na vida do autor, mas, mesmo não sendo fictício, a gente lê como se fosse: correndo junto do personagem, sofrendo e torcendo pela sua vitória. E que vitória! Que superação!


Alguns autores usam um recurso que eu chamo de achamento, que é quando afirmam que obra que escreveram foi encontrada de alguma maneira, entre eles: Cazuza, de Viriato Correa, e O Guarani, de José de Alencar. Aldo, por sua vez, não disse que encontrou a obra pronta, nem poderia, porque seria negar a si mesmo como protagonista do relato. Mas afirma que encontrou um diário onde estavam escritas as anotações de seus momentos de dor e sofrimento. Dessa forma, o diário passa a ser o fio condutor do desenrolar da história.


Não se trata de um diário de adolescente, mas de um diário onde estão anotados os fatos mais significativos daqueles dias e meses de busca pela cura de uma doença que parecia incurável. Diário ou prontuário?


Em meio a idas e vindas, separações e reencontros, entradas e saídas de hospitais, momentos de calma e outros de tosse e sangramentos está a reflexão sobre as questões sociais: o envenenamento pelo inseticida aplicado ao algodão sem os cuidados necessários e as durezas da vida no campo. “Tudo era improvisado, pois conviver com risco era algo natural naquele mundo das trevas.” Frases como esta marcam a indignação do autor e é também um marco dos motivos da militância que sempre andou de braços com ele. Quem sentiu na própria pele a dor em dose gigantesca não poderia ficar e jamais ficou indiferente à dor alheia.


Embora o livro tenha um discurso que flui com leveza, não se pode crer que tenha sido fácil para o autor revisitar aquele diário e refletir sobre o que nele estava escrito. Trata-se, portanto, de leveza dolorida, transformando aquelas anotações em obra que escapa ao círculo da família e dos amigos mais íntimos para ganhar a dimensão do mundo, pois não é fácil revisitar o passado, sobretudo, quando se têm feridas, sangramentos. “Confesso que essa parte da minha vida sempre evitei falar – diz Aldo – e muito menos escrever, pois foi muito dolorosa.”


O mais a dizer, entre tantas possibilidades, é que essa obra capta o leitor do começo ao fim, e desvenda um Aldo diferente daquele que todos conhecem dos embates e lutas de tantos dias para mostrá-lo num momento de fragilidade humana, momento particular e singular. E ao singularizar o ser na sua especificidade o coloca como símbolo do que há de humano em nós. O ser na sua totalidade.





Dil Gonçalves é escritor e autor de do livro Setembro Marrom

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