Rumo à estação Catanduva, do Professor Aldo dos Santos


Por:Neuza Aparecida Peres*...



Rumo à estação Catanduva, do Professor Aldo dos Santos, é um retrato do Brasil das décadas de 50, 60 e 70. Faz um recorte da vida de milhares de nordestinos que vislumbravam uma vida melhor. Expulsos de seus lugares de origem e obrigados a migrar para a sobrevivência própria e da família, viriam em busca de trabalho, casa, escola e um futuro com qualidade de vida.

Um Brasil que propagandeava sair do subdesenvolvimento e tornar-se uma potência econômica, atraía e povoava os sonhos daquela gente sofrida. Fábricas, construções, comércio, investimentos nacional e internacional pipocavam em todos os grandes centros urbanos do país, e São Paulo liderava esse movimento que enchia os olhos dos fazendeiros de café, enriquecidos e ávidos por mais lucro, que mergulharam então nessa lucrativa experiência.

A fome no Nordeste, em decorrência da seca, provocava o êxodo rural. A penúria era mantida pelos grandes latifundiários e oligarcas e foi, durante todo esse período, monopólio dos seguidos governos, tornando-se a "Indústria da Seca". Uma terra com um riquíssimo lençol freático não fornecia água para a produção de alimentos e nem mesmo para sobrevivência da sua população. Água tinha, e muita, mas era preciso tirar das profundezas da terra com a construção de poços artesianos. As cacimbas, poços d'água de extração manual, não davam conta da irrigação da lavoura e sobrevivência humana, nem dos animais domésticos. Longos períodos sem chuva somados à constituição do clima árido da região resultam numa terra seca, infértil e craquelada pelo sol.

Fui testemunha desta realidade quando, na década de oitenta, mudei-me para Fortaleza. Meu marido, na época, hidrogeólogo e professor universitário, em sociedade com um coronel reformado do exército, fundou uma empresa de construção de poços artesianos, mas a empresa fechou depois de algumas perfurações e venda de poços a pequenos agricultores. Ao tentar negociar com grandes indústrias, deram de cara com as empresas do governo que monopolizavam o setor. Não haveria como quebrar essa barreira e o lucro não compensava as despesas, nem dava para a compra de maquinário pesado, e a sociedade foi desfeita.

Não esqueço da minha viagem de mudança. Fomos de carro, parando para "apreciar" a paisagem. Já a partir do norte do estado de Minas Gerais, a visão e a tristeza daquelas terras se descortinaram. Andávamos centenas de quilômetros sem encontrar viva alma, reflexo dos latifúndios e terras devolutas. O solo rachado era uma visão desalentadora, os lugares onde antes corriam rios agora também se juntavam a esta imagem triste. Ao atravessar a cidade de Cabrobó, ossadas de bois compunham a paisagem. Eu, sem saber para onde estávamos indo, perguntava-me: “o que será que me espera?”. Não, Fortaleza não era assim. Fortaleza era um oásis naquele sertão. As pessoas que conheci, com uma cultura extremamente provinciana, entendiam-se como classe média, embora assalariadas como nós. Na capital do Ceará, a diferença entre classes sociais era nítida e visível quando nos dirigíamos aos bairros onde moravam os pescadores, os trabalhadores domésticos e pequenos comerciantes, vestígio de um Brasil ainda colonial.

O seu livro, Professor Aldo, me trouxe de volta esta lembrança, e me leva à reflexão de que o nordestino é sim um povo forte, tal como retratado por sua história e por nossa literatura brasileira. A sua luta por sobrevivência, a perseverança de acreditar nos sonhos e a disposição de luta são exemplos desta afirmação. E concluo: não são as alegrias da vida que constroem os gigantes, são as dores e o amor pela vida que fazem os verdadeiros heróis da nossa história.

São Paulo e outras capitais têm uma dívida histórica para com os trabalhadores migrantes dos estados do Nordeste.


Neuza Aparecida Peres - Professora de História, militante dos Direitos Humanos.

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