Resenha - Rumo à Estação Catanduva.


Por: João Pacheco*...




Contar uma história é vive-la novamente. Este é um sentimento presente no texto de “Rumo à Estação Catanduva”, livro do professor, sindicalista e militante socialista Aldo Santos.

A saga do menino negro, que com a família se vê obrigado a deixar a terra natal no Nordeste e migrar em busca de uma vida digna, lutando contra todas as injustiças e preconceitos. Uma história comum a tantos brasileiros.

Mas exatamente por isso, “Rumo à Estação Catanduva” é tão especial. Aqui, a história milhões de vezes repetida por tanta gente, ganha uma narrativa feita com o coração e os olhos de quem, na própria jornada da vida, conquistou o entendimento sobre as muitas mãos invisíveis da exploração que submetem nosso povo à essas sagas épicas.

A fuga da miséria, a união da família para vencer as maiores adversidades, um relato corajoso sobre o comprometimento da saúde, fruto das mais brutais condições de trabalho; e também muitos momentos em que a solidariedade, o companheirismo e os valores aprendidos com a mãe e o pai, são os pilares que permitem a sobrevivência e a superação.

Em um relato linear e cheio de memórias afetivas, Aldo abre o jogo e nos coloca em um Brasil que por vezes parece um país do passado, do grande êxodo dos anos 60 e 70 do século XX, que expulsou tanta gente de suas terras para formar as periferias de nossas grandes cidades. Mas também, e infelizmente, parece estar falando dos problemas que ainda hoje estampam os jornais: o trabalho sem direitos, a mão de obra infantil, o agrotóxico que envenena e mata.

Embora a maior parte da história se passe no estado de São Paulo, “Rumo à Estação Catanduva” tem cheiro e gosto de Nordeste, acentuado pelo belo trabalho gráfico de Léo Duarte, que como o autor, só que décadas depois, viveu a mesma sina de deixar tudo para trás e enfrentar a vida nas ruas e “quebradas” das cidades do Sudeste.

Publicação coordenada pela jornalista Ana Valim, de larga experiência junto aos movimentos sociais, “Rumo à Estação Catanduva” é trabalho coletivo, como tinha que ser o livro de um professor, que fez de sua vida a defesa da ideia que as soluções nascem da organização e da ação coletiva das pessoas.

Como acontece com o personagem da clássica música Disparada, de Vandré e Théo de Barros, que diz: “dos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando, até que um dia acordei”, no fundo, “Rumo à Estação Catanduva” é uma jornada rumo à consciência.


João Laerte Pacheco é roteirista e profissional de televisão. Militou na área dos direitos humanos e é filiado ao PSOL de São Bernardo do Campo.



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