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REFLEXÃO E SOLIDARIEDADE À LUTA POR MORADIA: OCUPAÇÃO PALESTINA LIVRE — DIADEMA

  • Foto do escritor: Aldo Santos
    Aldo Santos
  • há 5 horas
  • 8 min de leitura

A história da luta por moradia em Diadema, marcada por ocupações que ajudaram a transformar a paisagem social e política do Grande ABC, volta a ganhar um novo capítulo com a Ocupação Palestina Livre. Instalada desde 7 de setembro de 2025 em um antigo hospital abandonado na região central da cidade, na esquina da Avenida Alda com a Rua Oriente Monti, a ocupação reúne cerca de 200 famílias e se tornou, ao longo de quase um ano, uma comunidade organizada em torno da reivindicação por moradia digna.

 

O imóvel estava abandonado havia mais de uma década. Antes de ser ocupado, o prédio havia abrigado o primeiro hospital público de Diadema e, posteriormente, uma unidade do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Reportagens publicadas à época da ocupação registraram que o edifício permanecia vazio havia cerca de 13 anos, em meio a impasses envolvendo o imóvel.

 

 A ocupação ocorreu durante uma jornada nacional organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que realizou ações semelhantes em diferentes estados brasileiros. O nome “Palestina Livre” foi adotado como símbolo de solidariedade ao povo palestino e, ao mesmo tempo, como expressão da luta pelo direito à moradia.

 

Desde então, as famílias passaram a organizar a vida comunitária no prédio. Segundo relatos do movimento, o espaço foi submetido a ações de limpeza, organização e manutenção, passando a abrigar não apenas moradias, mas também iniciativas comunitárias. Entre elas está uma biblioteca mantida pelos próprios moradores.

 

A disputa judicial e a tentativa de desocupação

A situação ganhou maior tensão em setembro de 2025, quando a Prefeitura de Diadema passou a atuar para viabilizar a retirada das famílias. Em 22 de setembro daquele ano, a Guarda Civil Municipal cercou o imóvel e impediu o acesso de moradores que estavam fora da ocupação.

 

A questão, entretanto, já havia chegado ao Judiciário. A Justiça determinou que eventual desocupação deveria ser precedida por medidas de proteção social às famílias. Entre as condições estabelecidas estavam o acolhimento das pessoas em situação de vulnerabilidade, a inclusão em programa de aluguel social ou benefício equivalente, o cadastramento das famílias em programas habitacionais e o acompanhamento pela assistência social. A decisão também previa acompanhamento por oficial de Justiça e integrantes da Defensoria Pública.

 

Mesmo diante desse contexto, moradores e entidades ligadas à ocupação denunciaram que a ação de 22 de setembro ocorreu com uso da Guarda Civil Municipal e sem que as medidas de atendimento habitacional previstas judicialmente tivessem sido efetivadas. Relatos publicados na imprensa apontaram ainda denúncias de uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e gás de pimenta, acusações feitas pelos moradores e movimentos envolvidos.

 

O episódio abriu uma discussão que permanece atual: como realizar uma reintegração de posse envolvendo centenas de pessoas sem produzir uma nova situação de desabrigo?

 

Um problema que voltou à Câmara e às ruas

Em 2026, a disputa continuou. Em maio, reportagens informaram que a administração municipal havia ingressado com uma Ação Civil Pública para viabilizar a reintegração de posse do imóvel. Na ocasião, a Prefeitura foi procurada para informar qual seria a solução destinada às cerca de 200 famílias caso a desocupação fosse efetivada, mas afirmou que o processo tramitava em segredo de Justiça e não apresentou informações sobre o assunto.

 

Em agosto, o tema voltou ao centro do debate político municipal. Representantes do MLB compareceram à Câmara de Diadema para cobrar uma solução habitacional e defenderam, entre outras possibilidades, a elaboração de um projeto de retrofit — recuperação e adaptação da estrutura existente — para transformar o antigo prédio em moradia.

 

No dia 27 de agosto de 2026, um novo protesto ocorreu diante do Paço Municipal. O ato terminou em conflito dentro do prédio da Prefeitura. Segundo a administração municipal, dezenas de manifestantes entraram na sede do Executivo, houve danos ao patrimônio e um integrante da Guarda Civil ficou ferido. Dois homens foram presos. O movimento, por sua vez, afirma que a manifestação tinha como objetivo cobrar uma solução para as famílias e protestar contra a desocupação.

 

 A escalada do conflito evidencia que, quase um ano depois do início da ocupação, a questão central permanece sem solução definitiva: o destino das famílias e a construção de uma política habitacional capaz de atender à demanda existente.

 

A promessa das 5 mil moradias

A discussão também coloca em evidência uma promessa feita durante a campanha eleitoral que levou Taka Yamauchi à Prefeitura de Diadema.

 

Durante a campanha de 2024, Yamauchi apresentou como proposta para a área de habitação a entrega de 5 mil moradias e a regularização fundiária de aproximadamente 20 mil unidades habitacionais. A promessa foi registrada pela imprensa durante a apresentação de seu plano de governo.

 

 O questionamento feito pelas famílias da Ocupação Palestina Livre é, portanto, direto: diante da existência de centenas de pessoas ameaçadas de perder suas moradias, qual é o cronograma para que a promessa de 5 mil unidades se transforme em política pública efetiva?

 

É importante registrar que, em junho de 2026, o governo do Estado anunciou a construção de 400 unidades habitacionais da CDHU em Diadema, mas, segundo a reportagem que divulgou o anúncio, ainda não havia detalhes sobre o início das obras.

 

O anúncio estadual representa uma iniciativa habitacional relevante, mas também evidencia a dimensão do desafio: 400 unidades correspondem a uma parcela pequena diante da promessa municipal de 5 mil moradias e, principalmente, não constituem, até o momento, uma solução específica apresentada para as famílias da Ocupação Palestina Livre.

 

Uma cidade construída também pela luta por moradia

 

A atual disputa não pode ser compreendida apenas como um conflito envolvendo um prédio no centro de Diadema. Ela está inserida em uma história mais ampla de mobilização popular que atravessa pelo menos quatro décadas.

 

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, Diadema tornou-se um dos principais símbolos das lutas urbanas por moradia no Grande ABC. O período foi marcado por crise econômica, desemprego e crescimento das ocupações de terras e áreas vazias.

 

Uma das primeiras experiências dessa sequência foi o Buraco do Gazuza, em 1989. Estudos sobre a história da habitação em Diadema apontam a ocupação como um marco dos conflitos urbanos daquele período. A experiência posteriormente esteve relacionada à construção de um conjunto habitacional em sistema de mutirão, transformando uma situação de conflito em uma experiência de produção de moradia popular.

 

Em 1990, a Vila Socialista tornou-se outro episódio emblemático. Cerca de 2,5 mil pessoas ocuparam uma área de aproximadamente 240 mil metros quadrados no Jardim Inamar. A reintegração de posse terminou em confronto com a Polícia Militar, deixando mortos e dezenas de feridos. O episódio também atingiu o então vereador Manoel Boni, que perdeu uma das mãos durante a ação.

 

O conflito, porém, não encerrou a luta. O empreendimento habitacional posteriormente construído no local da Vila Socialista resultou em 507 unidades habitacionais, entregues em duas etapas, em 1994 e 1996, segundo publicação da CDHU sobre a história da habitação social no Estado de São Paulo. O projeto contou com forte participação dos futuros moradores e de movimentos de luta por moradia.

 

Em fevereiro de 1991, outra grande mobilização ocorreu no Morro do Samba. A ocupação começou em 22 de fevereiro daquele ano e, ao longo das décadas seguintes, a área deixou de ser vista simplesmente como uma ocupação e passou a integrar a própria estrutura urbana de Diadema.

 

Essas experiências ajudam a explicar por que a memória das ocupações possui peso tão grande na identidade política da cidade. Em Diadema, a luta por moradia não produziu apenas novos bairros. Produziu lideranças, organizações comunitárias, políticas públicas e uma tradição de participação popular que influenciou a trajetória da esquerda brasileira.

 

Da “cidade-problema” ao laboratório de políticas sociais

 

Durante décadas, Diadema carregou a imagem de uma das cidades mais pobres e socialmente desafiadoras do ABC Paulista. A explosão das ocupações era expressão de uma realidade marcada por déficit habitacional, precariedade urbana, desemprego e crescimento acelerado da população.

 

Ao mesmo tempo, a cidade passou a ser reconhecida por experiências inovadoras de política habitacional e participação popular. O próprio conjunto relacionado ao Buraco do Gazuza foi posteriormente reconhecido no Plano Diretor como imóvel de interesse paisagístico, histórico, artístico e cultural, justamente pela importância de sua trajetória na história das lutas populares por habitação.

 

É nesse contexto que devem ser lembradas figuras históricas da militância local, como Tonhão, Romildo Raposo, Manoel Boni, Dona Maria do Santa Cândida, Dagmar e tantas outras lideranças que participaram de diferentes momentos da construção do movimento popular e da esquerda em Diadema.

 

Mais do que personagens de uma disputa partidária, essas lideranças fazem parte de uma época em que a luta pelo direito à cidade se confundia com a própria construção da cidadania para milhares de trabalhadores.

 

A Ocupação Palestina Livre e a continuidade de uma história

 

É justamente essa memória que voltou a ser evocada durante a visita à Ocupação Palestina Livre realizada pelos companheiros Aldo dos Santos e Gil Ribeiro.

 

Durante a visita, foram realizadas conversas com lideranças e moradores, além de uma passagem pela biblioteca comunitária construída e mantida pela própria comunidade. Nesta oportunidade, fizemos a doação de alguns livro para o referido acervo.

 

 A atividade também resultou na gravação de um vídeo de solidariedade às famílias e de defesa do direito à moradia.

 

A visita ocorre às vésperas do primeiro aniversário da ocupação, em 7 de setembro de 2026, e procura estabelecer uma ponte entre as lutas históricas de Diadema e a mobilização atual.

 

A pergunta colocada pelas famílias é semelhante àquela que mobilizou trabalhadores em diferentes momentos da história da cidade: o que fazer com pessoas que precisam de moradia quando existem imóveis vazios e, ao mesmo tempo, não existe uma política habitacional capaz de atender à demanda?

 

No caso do antigo hospital da Avenida Alda, há ainda uma contradição adicional. Trata-se de um imóvel que permaneceu vazio durante anos e que voltou a ter ocupação humana justamente por meio de uma mobilização de famílias sem teto. A situação coloca em debate não apenas a propriedade do imóvel, mas também sua função social e o papel do poder público na mediação do conflito.

 

Direito à propriedade e direito à moradia

 

A discussão jurídica sobre a ocupação não elimina a necessidade de discutir a questão social. Uma reintegração de posse pode resolver a situação possessória de um imóvel, mas não resolve, por si só, a falta de moradia das pessoas retiradas.

 

Essa é a principal reivindicação apresentada pelas famílias: que qualquer solução seja acompanhada de uma alternativa habitacional concreta.

 

A Constituição Federal reconhece a moradia como direito social e estabelece a função social da propriedade. Na prática, o desafio é transformar esses princípios em políticas públicas capazes de responder à realidade de famílias que não conseguem acessar o mercado formal de habitação.

 

A história de Diadema mostra que conflitos que inicialmente pareciam apenas problemas de ocupação de terrenos acabaram produzindo bairros, conjuntos habitacionais, equipamentos públicos e novas formas de participação popular.

Por isso, a situação da Ocupação Palestina Livre ultrapassa os limites da Avenida Alda.

 

Ela recoloca diante da cidade uma pergunta que Diadema conhece há décadas: qual será a resposta do poder público para quem precisa de um lugar para morar?

 

Um ano depois, a luta continua

 

A Ocupação Palestina Livre chega ao seu primeiro aniversário com aproximadamente 200 famílias ainda reivindicando uma solução habitacional e com uma comunidade que criou vínculos sociais, familiares e comunitários no território.

 

Para os moradores, o prédio deixou de ser apenas uma estrutura abandonada. Tornou-se espaço de moradia, convivência e organização coletiva. Crianças passaram a crescer no local e famílias construíram ali relações de vizinhança e pertencimento.

 

Para o poder público, permanece a necessidade de cumprir as determinações judiciais relativas à proteção social das famílias e apresentar respostas concretas para a questão habitacional.

 

Para a cidade, o episódio representa também uma oportunidade de olhar para sua própria história.

 

Das ocupações do Buraco do Gazuza, da Vila Socialista e do Morro do Samba à atual Palestina Livre, a trajetória de Diadema revela que a luta por moradia nunca foi um capítulo isolado. Ela esteve ligada à formação dos bairros, à organização dos trabalhadores, à emergência de novas lideranças políticas e à própria construção da identidade da cidade.

 

A história mudou, mas a pergunta permanece.

 

Moradia não pode ser tratada apenas como mercadoria. Para milhares de trabalhadores, continua sendo, antes de tudo, um direito.

 

 Obs. Pretendemos dar continuidade a matéria,  com outros dados e fontes para  aprofundar o debate e os devidos esclarecimentos e memória da luta dos moradores de Diadema e região.

 

Síntese para o ABCDALUTA

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