Na luta contra a escravidão e o racismo


Por: Aldo Santos ***


Ao longo da história da humanidade e a partir das embrionárias classes sociais, os explorados no período do escravismo, no feudalismo e no capitalismo, todos lutaram valentemente para se livrarem da dominação dos opressores e defensores do capital. Nas relações de dominação capitalista, a partir do registro do primeiro leilão de africanos em 1444, na vila de Lagos, Algarve, num evento que contou com a presença do infante dom HENRIQUE, as atrocidades cometidas contra o negro foram ilimitadas, transformando tudo em mercadoria para o desenvolvimento mercantil.

Todos os instrumentos a serviço da dominação foram largamente utilizados, da espada à cruz, da ideologia considerando e denominação de povos inferiorizados sob a justificativa de povos civilizados, contidos nos manuais da filosofia, de teologia, da arte de guerrear e da dominação simbólica e cruenta que, como bem expressa o filme 1492, a conquista do paraíso é condenável sob todos aspectos.

Novas rotas comerciais e o plano e cerco dos colonizadores às colônias, subordinando-as aos interesses econômicos dos países centrais foram colocados em ação. O pacto de dominação e morte estava consumado. Durante séculos os nativos resistiram e ainda resistem a matança imposta e em parte ainda praticadas por governantes nos dias atuais. Escravizaram e dizimaram índios, negros, a população do campo e do meio urbano em nome do crescimento e desenvolvimento civilizatório.

Como se observa nos livros didáticos ainda hoje, praticamente existiu um povo sem rosto e sem história, onde os manuais de história e filosofia se ocupam de reproduzir a história dos europeus ao longo desse período a partir da história dos impostores dominantes e assassinos, como se os oprimidos não tivessem histórias e História. Existe um verdadeiro “epistemicídio” da histórica resistência do nosso povo. A esmagadora maioria dos livros didáticos deveriam ser jogadas na lata de lixo da burguesia, visto que apenas relatam a história dos dominantes e ainda querem que ensinemos essas tragédias infames com naturalidade, nas universidades e na educação básica.

Algumas experiências de lutas se perpetuaram pela tradição oral, restando o resgate mais profundo do efetivo sofrimento de luta permanente de libertação do nosso povo. É urgente reescrever uma nova história e uma nova filosofia da nossa classe a partir da fronte escrita ou da oralidade ainda presente na nossa comunidade. Imagina o mundo dos nativos sendo destruído e os mesmos lutando contra a opressão dos colonizadores num confronto de interesses econômicos, destruição da cultura, da matança institucional, sem o devido registro histórico deste grande contingente? Imagina nossos irmãos capturados em África, jogados num navio que tinha o cheiro da morte e aonde chegavam eram vendidos nos leilões como mercadoria?

O relato de Darcy Ribeiro é a descrição nua e crua da vida dos escravizados: “Apresado aos 15 anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro mercador africano de escravos - para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. Dali partiam em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o porto e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo a travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava à terra adentro, ao redor das minas ou dos açucares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: Trabalhar dezoito horas por dia, todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca ração de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar no dia seguinte até a exaustão.” Ou seja, na diáspora africana por mais que tentaram, não conseguiram apagar o assombroso passado do nosso povo capturado nas suas comunidades, mortos nos navios e jogados em alto mar, torrados nos tachos de engenhos, nas lavouras e minerações ou como escravos de ganho nas cidades.

Por mais que queiram ou tentem nos silenciar, a história e a filosofia revolucionária do nosso povo se fazem necessária e deve ocupar os livros didáticos a serem construídos e disseminados pelos nossos lutadores.

Os números dos escravizados diferem a partir de várias fontes e autores embora recentemente o Escritor Laurentino Gomes afirme que o “Maior território escravocrata do hemisfério ocidental, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos, 40% do total de 12,5 milhões embarcados para a América ao longo de três séculos e meio”. No livro Quilombos, resistência ao escravismo de Clovis de Moura e outros, apresentam importante contribuição de Leituração do nosso povo.

A distribuição dos escravos no Brasil a partir dos interesses das metrópoles, criaram dificuldades ainda mais na efetiva resistência dos escravizados, que “ Recorreram, por isso, a diversificadas formas de resistência, como guerrilhas, insurreições urbanas e quilombos”. CPagina 119)

Da mesma forma que o espalhamento de escravos em várias partes do Brasil, as revoltas também se espalharam, pois reagiram sempre a toda e qualquer forma de opressão. Dentre as inúmeras organizações, segundo Clóvis Moura, “Palmares foi a maior manifestação de rebeldia contra o escravismo na America Latina. Durou quase 100 anos e, durante este período, desestabilizou regionalmente o sistema escravocrata. Paradoxalmente, não temos nenhum documento escrito pelos Palmarinos durante sua existência, certamente seguiam, como nos outros quilombos, a tradição africana de comunicação oral”. Da mesma forma que a escravidão era uma ação estruturada pelos colonizadores, o sentimento de revolta e resistência também o era.

A guerra de Palmares que foi sufocada em 1695, com a morte de Zumbi dos palmares, estava longe do seu fim, uma vez que muitos que tinham nesta organização sua referência e experiência de luta organizada, continuaram influenciando outras manifestações por todos os lugares que tinham escravizados. “Muitos escravos, egressos de Palmares, com a experiência adquirida naquele reduto, estabelecerão um agrupamento quilombola em Cumbe, hoje Usina Santa Rita. Iniciarão em seguida uma série de ataques que intimidarão os senhores da região”. (página 31)

As metrópoles assim como os senhores de engenho reagiam diante das constantes fugas aprofundando a repressão para com os lutadores contra a escravidão. “Em 1741, mandará que seja rigorosamente cumprido o alvará de 7 de março daquele ano onde manda ferrar (ferro em brasa) com um F na testa do (Fujão) todo negro que fugisse e fosse encontrado em quilombo, e cortar uma orelha em caso de reincidência”, e como sabemos, o espancamento e a morte também eram justificados para conter e dar exemplo de terror aos que tentassem reagir ou continuar fugindo.

Como a forma de comunicação entre a camada pobre e escravizada era, via de regra pela tradição oral, o enfrentamento de Palmares era uma referencia de luta e encorajamento para os negros que eram escravizados no Brasil e certamente essa história se espalhavam por todos os cantos onde as pessoas se encontravam.

A história do Brasil é um grande oceano de lágrimas, torturas e sangue que muitas vezes nos livros de história oficial, se resume em pequenas referências, visto que a editora tem lado e classe na seleção dos conteúdos a serem transmitidos para as outras gerações. Resgatar essa história é urgente.

Certamente a historia de Palmares foi contada em várias partes do mundo e assim como em Palmares o desejo de liberdade era uma busca permanente nos idos de 1695, a história e a memória tem um papel importante na luta e organização de nossa gente. Por mais que a metrópoles controlasse, a influencia de outros acontecimentos também se manifesta na forma de organização e reação do nosso povo como o autor vai citar que “como vemos, os ideais de igualdade da Revolução francesa chegaram até os escravos brasileiros”. (página. 98)

No livro de Clóvis Moura, O Negro: De bom escravo a mau cidadão, “No Haiti como no Brasil, quando os teóricos da independência falavam em igualdade, não englobava os escravos. Em um liberalismo que aceitava a escravidão, postulando a igualdade, liberdade, e fraternidade para os homens livres.”(página 181)

Uma das grandes lutas pela libertação dos escravizado foi a Guerra do Haiti “ durou 13 anos, quando em 19 de janeiro de 1804, Jaques Dessalines Proclamou a independência do Haiti. Porém, o boicote contra a o Haiti é generalizado, e em 17 de outubro de 1806, Dessalines e assassinado e esquartejado.

Segundo citação do autor, fazendo referência a Darcy Ribeiro, após a “expulsão dos brancos, com o extermínio dos que resistiram, desencadeou-se a luta entre mulatos e negros que prossegue até nos dias atuais, com a sucessão de episódios sangrentos e de períodos de acomodação, sempre sob forte tensão. O Haiti foi conduzido, assim, por décadas, a um estado de convulsão em que se sucediam governos duplos, e em disputa, as ditaduras mais ferozes e os retrocessos sociais, com as temporárias reimplantações da escravidão”. (página. 183)

Assim como a guerra de Palmares foi muito importante na luta de resistência dos escravizados, sucessivamente outras grandes lutas também foram igualmente importantes no imaginário popular e uma escola de guerra e aprendizado contra os capitalistas de ontem e de hoje.

No livro Quilombos-resistência ao Escravismo de Clóvis Moura, ela afirma: “Evidentemente, há muito exagero no perigo da haitianização do movimento dos colonos suíços em Ibicaba, como na possibilidade de sua união com os quilombolas. O que não se pode negar é o pavor da classe senhorial ao pressentir qualquer movimento que significasse mudanças social na estrutura da sociedade escravagista. Convém notar que o Manifesto Comunista de Marx e Engels foi publicado em 1848 e já, em 1857, os responsáveis pela experiência de Ibicaba referiam-se ao fantasma do comunismo’ e à possibilidade desse perigo unir-se às lutas dos quilombolas no Brasil”. (pág. 127)

O autor ainda vai registrar que por ocasião da votação da lei do ventre livre, em 1871, “o gabinete Rio Branco era acusado de ‘governo comunista, governo do morticínio e do roubo’. Segundo Rui Barbosa, certo deputado dissera que o gabinete Rio Branco havia desfraldado as velas por um ‘oceano onde voga também o navio pirata denominado ‘A internacional”. ( pág. 127)

No recorte da linha do tempo, desde o primeiro leilão de africanos escravizados em Portugal em 1.444, com chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492, com a “construção do Castelo de São João de Mina, ou Elmina, primeiro grande entreposto de tráfico de escravos na costa da África” o registro dos primeiros índios escravizados vai estar presente também nesta cronologia do Escritor Laurentino Gomes.

Embora aos registros apontem para uma leitura dos fatos históricos oficial, num verdadeiro apagamento das lutas e resistências dos nosso índios e negros escravizados neste período. É fundamental o destaque da guerra dos palmares, que por aproximadamente 100 nos de resistência, Palmares foi destruído e a cabeça de Zumbi foi degolada, sendo exibida num poste em Recife.

Outras grandes lutas foram dignas de registro e influenciou a luta do nosso povo pobre e escravizado, como a Revolução francesa, a Guerra do Haiti, o lançamento do Manifesto comunista em 1848, a revolta dos malês que continuam influenciando até hoje os rumos do movimento antirracista. É fundamental essa associação da Luta de combate e condenação à escravidão e ao racismo e sua caminhada para a construção do socialismo científico.


Aldo Santos –Militante do movimento Sindical, filosófico e filiado ao Psol.


Bibliografia:

- RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. SP: Companhia das letras,2006.

- Gomes, laurentino, 1956. Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal à morte de Zumbi dos Palmares, volume1/Laurentino Gomes, 1.ed., Rio de Janeiro: Globo livros,2019. (Uma história da escravidão no Brasil;1)

- Moura, Clóvis, M929q. Quilombos: resistência ao escravismo. 1.ed., São Paulo: Expressão popular,2020.

- MOURA, Clóvis. O negro, de bom escravo a mau cidadão? Ilustração Marcelo D’Salete. 2. ed. São Paulo: Editora Dandara,2021.

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