Hoje minha mãe completa 93 anos.


Por: Aldo Santos***


Em 13 de fevereiro de 1929, nasceu uma linda e importante mulher no sertão do Ceara, que desde o nascimento enfrentou as marcas do sofrimento, da resistência e da superação. Essa mulher foi batizada com o nome de Maria Bevenuta de Jesus, criada pelo pai e pela madrasta. Casou-se aos treze anos com Josias Raimundo dos Santos, também da circunvizinhança do sertão cearense. Deste casamento nasceram: Raimundo Josias dos Santos, Francisco Josias dos Santos, Erivaldo Josias dos Santos, Aldo Josias dos Santos, Tânia Maria dos Santos, Francisco Cleonaldo dos Santos, Francisco Raimundo dos Santos e Alda Maria dos Santos. Além desses, outros dois natimortos fazem parte de nossa história. A Família conta hoje com dezenas de netos/as e bisnetos/as.

Empurrados pela seca e pelas dificuldades sociais, migraram para o interior de São Paulo, trabalhando como bóia fria, meeiro, arrendatários, pequenos sitiante. No final da década de 60 e início da década 70, parte da família veio para a Cidade de São Bernardo e posteriormente mudaram-se para Diadema. Hoje, grande parte dos irmãos estão morando na Cidade de Hortolândia, Estado de São Paulo.

A APEOESP - Sindicato dos professores do Estado de São Paulo, sabiamente publicou na Agenda dos Professores – 2010, uma merecida homenagem as grandes mulheres, que se destacaram em vários campos das atividades humanas, tais como: Bertha Lutz, pioneira do feminismo brasileiro; Chiquinha Gonzaga, importante expoente da musica brasileira; Cora Coralina, destacada poetiza; Dandara, Mulher de zumbi dos Palmares e guerreira contra a escravidão; Joana D’arc, guerreira francesa; Maysa, ilustre cantora; Mercedes Sosa, singular cantora de musicas revolucionárias latino-americano; Olga Benário, militante comunista; Pagu, participante do movimento modernista; Rachel de Queiroz, importante escritora brasileira; Rosa Luxemburgo, filósofa marxista e militante política e; Simone de Beauvoir, famosa escritora libertária.

É claro que outras mulheres importantes também existiram e existem, porém, os afazeres cotidianos e o envolvimento com a preservação da “espécie obstam” por vezes sua notoriedade.

Na lista publicada faltam mulheres que, pela coragem, ousadia, militância e superação das dificuldades da vida, são verdadeiras heroínas, cujos valores estão impregnados na cultura popular, familiar e de seus descendentes ao longo da existência humana.

Maria Bevenuta de Jesus teve e tem importante contribuição na criação e zelo dos filhos e filhas, netos e netas e sua memória está mais viva do que nunca no nosso cotidiano, definindo valores ético-morais, estéticos, filosóficos e militantes das causas coletivas e libertárias.

Sua biografia foi marcada pela escultura de um mundo novo, pela ruptura com a sociedade posta. Militou no surgimento de PT, no núcleo do Jardim Independência sbc, participou do movimento de mulheres nesta região, liderou e coordenou o primeiro encontro de mulheres em Diadema, conforme documentos existentes em nossos arquivos, contribuiu com a luta partidária em Hortolândia, sendo uma das primeiras dirigentes da ALS (eleita no primeiro congresso) e em suas últimas palavras fez menção “à festa-alegria, união familiar, focando a necessidade da participação e militância política”.

Há 93 anos, essa brava mulher foi lançada ao mundo, numa vida e linhagem sem fim, impregnada de acolhimento e da ternura presente em todos os seres viventes.

Com o falecimento inesperado da nossa mãe em 12/10/2005, muitas coisas mudaram, menos o amor e a saudade que a cada dia fica mais forte e nos fortalece para tocar a vida enfrente!

Num mundo onde o capitalismo determina o tempo e as prioridades de cada um de nos, é fundamental refletir, elaborar e pensar sobre nossos antepassados, nossa ancestralidade que estão vivos e presentes nas nossas existências, tanto do ponto de vista biológico quanto metafísico.

Feliz Aniversário Dona Maria Bevenuta de Jesus.



Aldo Santos: Sindicalista, Ex-vereador em SBC, sindicalista, militante da filosofia revolucionária e do Psol.


Veja que depoimento bonito de uma das netas.


Uma visão histórica dos fatos, tio. Muito lindo. Se me permite uma visão um pouco mais emocionada, aí vai um texto meu:

Minha Avó, Nossa Mãe.

Dizem por aí que avós são mães duas vezes.

Considerando que ser mãe já é algo tão poderoso, nem dá pra imaginar isso multiplicado por 2. E faz quase 5 anos que eu perdi 2 das minhas várias mães.

Ela faz - e como faz - falta. Pra ela, tudo se resolvia num provérbio, num pensamento, numa reflexão, num sorriso, num jeitinho que era tão dela que virou marca registrada. Mas acima de tudo, a marca registrada da minha avó foi a coragem. E que mãe não é corajosa?

Ela lutou por seus filhos, ela construiu a história de cada um ao mesmo tempo deixando-os conduzir a própria vida. Ela faz - e como faz - parte da vida de cada um que a conheceu. Ela os fez ter coragem, ela construiu neles sua luta, sua esperança, sua fé. Lembro do sorriso, lembro da batalha, e todo dia em alguma coisa pequena do meu cotidiano, eu lembro dela. Mesmo sem perceber.

Os pés cansados, os olhos cheios de histórias e de história, a vida toda num sorriso e numa expressão. Tudo se resumia ao rosto dela. Naquela expressão havia força, luz e experiência. De certo modo, a alegria dela cobria tudo de um jeito que não dava pra não notar. Ou se emocionar.

Amanhã seria o aniversário dela. Dia 13. Sem misticismos, o número já sugere algo (se sorte ou azar, não sei. mas lembra.). Ela me ensinou a crer, em misticismos, em sorte ou azar, em borboletas azuis - tudo isso com os dois pés muito bem fincados no chão. Aqueles pés cansados, mas que ainda tinham energia.

Ela me ensinou a luta, a coragem, a base e o chão. Nada que seja surpreendente vindo de duas mães. Mas em cada um de nós que a conheceu e a adorou - porque era impossível não adorar - amanhã é um dia vazio e cheio.

Vazio porque a base já não é mais tão concreta. Cheio de significado, pensamentos, orações e - porque não? - uma borboleta azul.


Marina Geiger

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