Congresso do PSOL Santo André: de negacionista e genocida todo mundo tem um pouco? Não né...


Por: Marcelo Reina.




Congresso do PSOL Santo André: de negacionista e genocida todo mundo tem um pouco? Não né...


E adeus! Obrigado PSOL Santo André. Quem sabe um dia, num outra condição, possamos nos ver sem tristeza... Por agora, acho melhor assim


Domingo, 09/08/21, dia do congresso do PSOL Santo André. Centenas de pessoas foram decidir a nova direção do PSOL na cidade, centenas de pessoas se deslocaram pela cidade e se aglutinaram em filas para o congresso.

Eu não votei, não participei do tal congresso, porque estava trabalhando no domingo.

Meu trabalho?

Sou fisioterapeuta do SUS. Trabalho atendendo gestantes e puérperas numa UTI COVID19.

Enquanto acontecia o tal congresso eu atendia uma puérpera de 26 anos com COVID19, 55 dias em coma e ventilação mecânica. Seu bebê também está bem grave. Durante a semana morreu uma gestante de 33 anos com COVID19. Conseguimos fazer o parto e o bebê sobreviveu, mas ela morreu. Deixou órfãos outros 2 filhos.

Ainda que tentemos tudo, nada funciona e vejo minhas pacientes morrerem deixando um rastro de tristeza nas famílias.

Me pergunto as vezes: por que aquela mulher estava ali naquela UTI? Por que tantas estiveram ali? Ela não precisaria estar ali...

Me pergunto também a cada morte: Valeu a pena ter ido tomar aquela cervejinha com os amigos no bar? Valeu a pena aquela aglomeração? Valeu a pena? Qual a pena? A morte de milhares de pessoas.

Realizar um congresso para decidir a direção do PSOL era uma necessidade inadiável? Tinha que ser feito num momento de descontrole da pandemia, com mil pessoas morrendo por dia? Precisávamos mesmo realizar um congresso nessas condições?

Por favor não venham me dizer que "foi feito segundo os protocolos de segurança"... Conheço esse discurso, já ouvi na boca de presidente de comitê olímpico, do secretário de educação do Estado de São Paulo e de muitos prefeitos em todo o Brasil. Também não precisam justificar que foi feito por "uma determinação das instâncias superiores do partido". Não justifiquemos os erros, não.

Não, não há segurança e defesa da vida numa reunião para mais de 400 pessoas na atual situação. Inclusive vi fotos de pessoas que admiro mostrando ao fundo uma fila imensa, com pessoas muito próximas uma das outras, e alguns com máscara abaixada.

Dizer que havia condições seguras para esse congresso é ser negacionista. Negacionismo (psicologia) é negar uma realidade cruel para acreditar em uma "realidade" alternativa, menos dolorosa.

Dizer que havia condições seguras para realização desse congresso é negar a realidade que vivo a cada plantão no hospital. Sim, é dura e cruel, mas a realidade é que pessoas morrem como consequência das inconsequentes aglomerações como o congresso do PSOL de Santo André.

Embora eu considere o PSOL o melhor partido do Brasil, considerando sua coerência política, idéias, ações e o grande número de pessoas sensatas no partido, acho que poderíamos ser melhores.

Sei que poucos lerão esse texto, poucos chegarão até aqui, também sei que minha capacidade de mobilização hoje é muitíssimo pequena no partido em Santo André, quase nada; é pouca minha capacidade de comunicação interna. Sei disso. Porém, escrevo esse texto para, quem sabe, mexer com o coração de alguém aqui para que novas situações como a de domingo não se repita enquanto estivermos nessas condições.

Tenho 20 anos de profissão e nunca foi tão difícil ser fisioterapeuta como agora, nunca sofri e chorei tanto diante de tanta desgraça.

Nada vale uma vida.

Alguns países fizeram Lockdown por 61 casos (NÃO MORTES, SÓ CASOS) como a China ou a Austrália (3 casos), mostrando com isso um respeito e valorização da vida.

Certa vez o comandante Che disse: " o conhecimento nos faz responsáveis". Sabemos o que reuniões e aglomerações podem fazer com a vida dos nossos irmãos. Pode matar pessoas, acabar com sonhos. Se sabemos disso, não devemos fazer. E não precisa justificar o erro, apenas cuide-se para que não se repita (frase do Che também).

Só conseguiremos criar um mundo melhor, sem oprimidos e opressores, se considerarmos prioritariamente a vida.

É com profunda tristeza que vi, a distância, esse congresso. E coisas similares aconteceram em 2020 no diretório de Santo André (mostrando que a aglomeração não se deve por uma obrigação estatutária) no período pré, e durante, a campanha eleitoral, como a votação presencial para vice e coligação.

Desvalorizar a vida combina com o capitalismo, não conosco.

Como não tenho condições de mudar essa realidade no partido, e também não consigo conviver com o meu partido, na minha cidade, fazendo aquilo que tenho criticado tanto nos últimos 16 meses acho que chegou a hora de uma separação.

Não me sinto mais representado pelo PSOL SANTO ANDRÉ (isso não se deu no domingo; há muito tempo tenho a percepção que eu e o PSOL Santo André não estamos em sintonia. Não sou mais ouvido nem nas questões que tenho acúmulo como a SAÚDE).

Saio com grande dor. Eu suei muito para construir esse diretório, coloquei muitos salários meus, participei de reuniões com 3 pessoas, fui presidente por 2 mandatos desse diretório, fui candidato a prefeito de Santo André sem vereadores, sem dinheiro, sem equipe, enfim fui muito feliz com as experiências que tive aí. Estou escrevendo com lágrimas nos olhos, mas acredito ser o melhor caminho.

Continuarei no PSOL ainda, mas não em Santo André. Como militei ao longo da minha vida em muitas cidades, procurarei uma casa para me abrigar e poder ser útil e ouvido na construção do partido.

Fiz muitos amigos, continuarei amigo de todos, muitos têm minha admiração e continuarão tendo. Não nos veremos mais em reuniões do diretório municipal de Santo André, mas com certeza nos veremos nas lutas de construção de um lugar bom para viver, bom para todos, um lugar comunista.

Sairei desse grupo de WhatsApp, porém ficarei ainda por algumas horas para que os amigos que queiram fazer algum contato possam fazê-lo.


Abraços e saudades


Marcelo Reina

Fisioterapeuta do SUS, Professor universitário, ex-presidente do PSOL Santo André e ex-candidato a prefeito de Santo André pelo PSOL em 2012.

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