Ato contra o racismo em frente à Escola Estadual Amaral Wagner

Atualizado: 28 de dez. de 2021


Por : Aldo Santos***



Confesso que foi uma tarde com muito aprendizado, com todas as narrativas possíveis e necessárias.

Palavras de ordens para todos os entendimentos, falas das mais variadas e conteúdos engajados.

Sem formalidades, as pessoas livremente usavam a palavra para discorrer sobre a temática do ato e por mais de três horas o movimento cantou, pulou, fez batucada, denunciou e até atearam fogo numa improvisação simbolizando às indumentárias usadas pelos KKK.



Fiquei refletindo sobre a divisão no interior do movimento negro, por vezes de caráter moral em torno dessa polêmica, onde uns defendiam veladamente a inocência do professor e a esmagadora maioria condenavam a manifestação criminosa do professor de história, Luiz Antônio Bortolo, após a exposição de um vídeo divulgado no dia 08/12/2021, no recinto interno da referida unidade escolar.


O que me chamou atenção foi a postura da direção da escola, com os muros fechados, tudo trancado, vários carros de polícia militar no entorno do ato e ao final, a direção arrogante e excludente, de forma autoritária acabou recebendo uma pequena comissão para tentar justificar os fatos de conhecimento público.


Alguns fatos ainda são intrigantes: esta exposição teria acontecido no dia 08/12/2021 e a primeira medida foi tentar abafar o caso como se nada tivesse acontecido. Ao tentarmos saber sobre o ocorrido, muitos disseram que tudo isso, “quanto mas mexe, mais fede”, como se ignorar ou associar tal fato de tal relevância ou ser comparado a “uma merda”, conforme a intenção dos abafadores.


O silêncio da maioria esmagadora dos professores/as, da Direção, da Diretoria de Ensino, do Conselho de Escola e do próprio professor de história, em nada contribuiu para abafar ou esclarecer os fatos e sim aumentava a revolta coletiva a partir das criminosas imagens que circulavam livremente para todos os cantos e em todas as mídias.


Com o crescimento da indignação e do silêncio institucional dos fatos, várias correntes políticas começaram a divulgar notas contra a apologia ao criminoso movimento KU klux Klan. Por último, a direção da APEOESP e o SINPRO-ABC também emitiram nota condenando o fato em si.

Se o fato aconteceu no dia 8/12, a escola divulgou nota recentemente e só vi uma nota do professor, datada de 22/12/201 tentando esclarecer e justificar o ocorrido.


O silêncio dos senhores da Casa Grande, protegidos pelos enormes muros da referida unidade escolar, significava um tapa na cara do movimento negro que estavam pacificamente em frente a unidade escolar protestando e pedindo para ser atendidos pela gestão e representantes da Diretoria de Ensino.


Nos discursos, dava para localizar, no dito popular os que tentavam ‘contemporizar’ e os que condenavam veementemente tal atitude. Mas o significado e a importância do ato podem ser traduzidos numa fala que deveria ser ouvida por todos e todas, num verdadeiro testemunho do que representa o sofrimento e o racismo nas escolas, contada pela escritora Kiusam Regina de Oliveira quando morava ao lado desta comunidade e do sofrimento que a mesma narrou, emocionadamente.



Uma verdadeira aula que todos deveriam se inspirar para ter a coragem necessária para condenar toda e qualquer forma de agressão ao povo negro ao longo da nossa história. Estou me referindo a fala neste ato da Professora e consagrada escritora Kiusam.

“Nascida em Santo André, SP, Kiusam Regina de Oliveira é Professora da Universidade Federal no Espírito Santo. Possui Mestrado em Psicologia e Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo, sendo também Especialista em Educação Especial. Educadora há vinte e cinco anos, com experiência desde a educação infantil até o ensino superior. Arte-educadora, atuou como orientadora pedagógica do projeto Geração XXI, o primeiro de Ação Afirmativa do país. Foi Chefe de Educação Especial do município de Diadema, SP, de 2005 a 2008. Assessorou a implementação da Lei 10.639/03 em Diadema, de 2005 a 2016. Em 2010 e 2011, atuou como assessora na Secretaria de Cultura de Diadema nos assuntos da cultura voltada para as questões de gênero e raça, tendo como foco a dança. Em 2013, assessorou a PMSP-DOT-P-Guaianases para a implementação da lei 10.639/03 na região. Em 2010, representou o Brasil no FESMAN – Festival Mundial de Artes Negras –, no Senegal. É Iyalorixá. Integrante da ONG Olhares Cruzados. Artista multimídia e coreógrafa, tem palestrado pelo Brasil sobre a temática das relações étnico-raciais, focando em: candomblé e educação; corporeidade afro-brasileira; danças afro-brasileiras e cultura; e Lei 10.639/03. Nessa linha, tem ministrado oficinas sobre Corporeidade Poética, racismo e gênero. Criadora e diretora do programa de rádio Povinho de Ketu – as africanidades brasileiras no ar, transmitido por rádios públicas nacionais. Contadora de histórias da mitologia afro-brasileira.

Em 2009, publicou pela editora Mazza Omo-Oba: histórias de princesas, no qual recupera os mitos dos orixás femininos como princesas aproximando-as do universo feminino negro do passado e da contemporaneidade. O livro obteve boa recepção crítica, tendo sido recomendado em 2010 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ – e selecionado em 2011 para integrar o acervo do PNBE – Plano Nacional da Biblioteca Escolar.

Em 2013, a autora retorna ao universo infantil com o livro O mundo no black power de Tayó, editado pela Peirópolis. O texto tem como centro das atenções uma menina de seis anos e seu belo cabelo “black power” (poder negro), que é relacionado ao universo da memória ancestral africana e às tradições culturais vigentes na diáspora. E novamente emerge a valorização do corpo e da identidade negra como forma de questionamento de estereótipos racistas.


Em 2014, pela mesma editora, lança O mar que banha a ilha de Gorè, texto que aborda a história do tráfico de seres humanos escravizados no processo de colonização europeia das Américas. A narrativa tem como protagonista uma menina de nove anos que viaja ao Senegal, especificamente para a ilha de Gorè, conhecido entreposto de onde vieram centenas de milhares de africanos vendidos como mercadoria. O texto volta ao passado de angústias e sofrimentos a partir de uma perspectiva identificada às vítimas e traduz o fato histórico numa linguagem acessível ao leitor iniciante. Como os anteriores, O mar que banha a ilha de Gorè é valorizado por ilustrações de extremo bom gosto que o embelezam e chamam a atenção para os fatos narrados.

A propósito, afirma a autora no paratexto inserido neste último volume: “nos livros que escrevo, procuro voltar meu olhar para o processo de construção de identidades infantis e juvenis saudáveis, buscando contribuir para uma educação antirracista e para o empoderamento feminino.

Tal procedimento permeia de fato toda a sua obra, marcada pela representação do universo africano e afro-brasileiro de maneira lúdica e pelo propósito de cativar e prender a atenção das crianças de todas as cores e idades, numa postura de respeito e valorização da alteridade – atitudes mais do que necessárias nesse começo de século marcado pela intolerância para com as diferenças étnicas e sociais. ”( http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/1055-kiusam-de-oliveira)



A observação dela ao final da fala foi de preocupação, pelo que entendi, com a Hainra Asabi, professora desta unidade escolar, temendo o que poderá vir acontecer com a mesma no que diz respeito a ação institucional dos representantes da Casa Grande.

Como professor que por vários anos venho militando na área da educação, reafirmo que precisamos denunciar fartamente o racismo que existe na sociedade e no interior das unidades escolares, onde muitas vezes colegas nos informam sobre o assédio existente, mas não denunciam temendo o pior em relação ao seu trabalho e até mesmo a sua vida.


Neste sentido, o movimento negro deve apurar tudo o que aconteceu nesta unidade escolar e o que poderá acontecer, pois isso representa apenas uma pequena ponta do iceberg do que ainda ocorre nos dias atuais no chão da sala de aula, bem como nos bastidores com efetivos assédios contra nossos alunos/as e professores/as negros/as.


Que este fato sirva de lição aos educadores/as e a população em geral, pois nem de brincadeira ousem desqualificar nossas lutas, nossas efetivas pautas de combate aos conteúdos racistas e os movimentos criminosos com nosso povo, visto que o combate ao racismo estrutural passa por essa permanente vigilância do que ocorre no nosso cotidiano social e pedagógico.


Portões fechados, silencio institucional, demora em responder a tão grave fato diante desta aberração, denunciam a forma como os que lutam ainda somos tratados em nossa sociedade.


Para Arendt o mal não é uma categoria ontológica, nem metafísica, e sim uma manifestação que se instala onde encontra em razão da escolha política o receptivo espaço institucional.


Em São Bernardo enfrentamos inúmeros casos de racismo, assim como em Santo André, onde é histórica as manifestações dos carecas do abc, bem como enfrentamos um caso de racismo de uma funcionária da câmara municipal de Santo André e, em conluio o pacto da branquitude política venceu mais uma batalha por falta de apoio inclusive de parte do movimento negro institucionalizado.



Diante de uma conjuntura de banalização do mal e a naturalização do racismo, da violência e da morte, lutar sempre é preciso e urgente.


Aldo Santos - Autor do livro “Movimento Negro: embate político e jurídico”, publicado pela Dialógica Editora, 2016.

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