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As Desventuras de Orlandinho e o Silêncio Censurado em São Bernardo dos Risos


Professor Fagundes***


Numa cidade chamada São Bernardo dos Risos, o prefeito, cujo nome era tão peculiar quanto suas promessas, era o inesquecível Orlandinho.

Lembro-me como se fosse hoje de quando ele ganhou a eleição prometendo a construção de 10 escolas por ano. No entanto, para a surpresa de todos, apenas três foram inauguradas, e olha que estas eram as únicas que já estavam prontas. São Bernardo dos Risos, que antes parecia ser apenas uma cidade, estava prestes a se tornar o cenário de uma verdadeira comédia. Além das promessas escolares, Orlandinho brindou os risenses com a promessa de uma estação de metrô para a cidade. Tínhamos até uma data de entrega que gerava expectativas, os cidadãos aguardavam ansiosamente pela revolução no transporte público. Oito anos se passaram, entretanto, nem mesmo um buraco foi cavado para a tão sonhada estação de metrô. São Bernardo dos Risos, que já era palco de risadas pela falta de escolas (éramos 200 unidades. Hoje 175), agora se via no centro de outra piada: a estação de metrô fantasma de Orlandinho.

Em meio aos chiliques de Orlandinho quando era questionado em seus discursos, aquele autoproclamado "reizinho do ABC dos Risos", que não media esforços para atacar os menos favorecidos, é inevitável lembrar das sábias palavras de Bell Hooks, a mestra das verdades inconvenientes. Enquanto o "Vagabundo, cala a boca, tirem ele daqui..." ecoava no ar como um sinal sonoro da truculência e arrogância de Orlandinho, Bell Hooks surgia com seu humor afiado, declarando: "Desafiar a intolerância é como dar um nó no cadarço do sistema – um passo de cada vez, mas, oh, como é divertido ver esses nós se acumularem!".

Num episódio que exemplifica a postura machista de Orlandinho, durante o ataque aos movimentos dos trabalhadores sem teto, ele surpreendentemente promete comprar um tanque de lavar roupas para uma munícipe – porque, claro, nada diz "solidariedade" como eletrodomésticos improvisados em resposta a questões sérias. Essa atitude de Orlandinho não apenas ilustra sua desconexão com problemas reais, mas também reforça as palavras de Bell Hooks sobre desafiar as estruturas que perpetuam a desigualdade. O palco está montado para um espetáculo cômico de desconstrução social, onde a risada é o melhor antídoto para a ignorância! Realmente não há diálogo com Orlandinho. Ficava claro que desafiar Orlandinho não era uma opção. As confusões começaram a se desenrolar quando a cidade de São Bernardo dos Risos foi surpreendida pela maior enchente de sua história. O centro, os bairros tradicionais e até mesmo o Rudge Ramos foram invadidos pela água, criando um verdadeiro caos. Quando questionado sobre a situação, Orlandinho atribuiu a culpa à "zeladoria da cidade". Ora, quem mais deveria zelar pela cidade?

A água veio com força, transformando as ruas em piscinas improvisadas, onde até mesmo as baratas tinham a oportunidade de aprender a nadar. Sim, baratas, porque em São Bernardo dos Risos elas são tão comuns quanto ratos e o odor desagradável que impregna a cidade. Enquanto as baratas praticavam natação, os ratos aproveitavam os deslizamentos de terra na periferia como tobogãs improvisados. E lá estava Orlandinho e sua trupe, dormindo em berço esplêndido no mundo de Nárnia, alheios ao caos aquático e aos ratos deslizantes que reinavam na cidade. Parece que a realidade deles estava tão distante quanto o fundo do armário de um leão falante.

Orlandinho, autointitulado o "mestre da piada", conquistou o coração de uma construtora de "altíssimo padrão". A proposta foi direta: "Olha, Orlandinho, o negócio é simples. Vamos vender tudo!" E Orlandinho captou a ideia de imediato. Despachou a secretaria de finanças, negociou a secretaria de educação e outros 30 terrenos e imóveis com a tal construtora, deixando a cidade em estado de perplexidade. A antiga rodoviária foi para o "beléu", o prédio das finanças desapareceu mais rápido que um truque de mágica, e até o departamento de tecnologia da informação foi engolido pela seriedade do negócio (se é que vocês me entendem). E o pior de tudo, São Bernardo dos Risos ficou sem a própria secretaria de educação. Quando o assunto é educação, as mãos ágeis de Orlandinho desenharam um cenário de desafios, com a educação de jovens e adultos desvanecendo como uma ilusão de mágica. Recordando as palavras do sábio Darci Ribeiro, que navegava pelas complexidades da educação brasileira como um verdadeiro almirante, podemos ousar dizer: "Com Orlandinho, a EJA transformou-se em EJA-Desapareceu, como se a cidade tivesse se tornado um palco de espetáculo mágico, onde até o conhecimento decide fazer uma pausa estratégica, talvez para um cafezinho nos bastidores da ignorância. Quem sabe na próxima eleição, a EJA ressurja dos seus truques, ou melhor, desaparecimentos? Orlandinho, o ilusionista da administração municipal, deixando todos atônitos com seus números educacionais que desafiam a lógica, e adivinhe só, testando a paciência dos cidadãos como um verdadeiro número de malabarismo!"

Como diria Raul Seixas em "Ouro de Tolo": "Eu devia estar contente, por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado, que eu estou decepcionado..." A população, que antes esperava por melhorias, viu-se envolta em risos amargos diante das promessas não cumpridas de Orlandinho. Parece que encarar tudo isso com seriedade era a única opção que restava aos habitantes da cidade dos risos. Com Orlandinho no comando, a cidade se transformou em um palco de demolição, onde casas eram derrubadas mais rápido do que a capacidade de Orlandinho em pronunciar seu próprio nome. Até mesmo os terreiros dos religiosos não foram poupados, afinal, Orlandinho tinha uma visão tão peculiar de urbanismo que até os deuses foram despejados!

Os funcionários, sem aviso prévio, foram transferidos para destinos tão misteriosos quanto a receita do risoto da vovó. Enquanto a cidade era transformada em um verdadeiro espetáculo circense, o odor de esgoto e o barulho das baratas faziam parte da trilha sonora cotidiana. Para completar, o convênio de saúde dos trabalhadores aumentou, o salário reajustado sempre abaixo da inflação, empresas tradicionais foram embora, e a cidade passou a ser conhecida como São Bernardo dos "risos amargos". Nesse ínterim, ninguém sabia onde estavam os representantes públicos. Os vereadores e o Ministério Público pareciam ter feito uma fuga digna de um filme de comédia.

E assim, São Bernardo dos Risos se encontrava em meio a suas desventuras hilárias, com Orlandinho e sua trupe que dormem em berços esplêndidos liderando o espetáculo e os cidadãos tentando sobreviver ao caos com um sorriso nos lábios. O novo lema da cidade agora era: "Lhevrairnos de Orlandinho e rir até a barriga doer, mas cuidado para não rir tão alto que acorde os ratos deslizantes e as baratas nadadoras!"

Fechamento da escola Tito Lima no bairro Riacho Grande, Pedra de Carvalho bairro Vera Cruz, no campo da defesa dos direitos da criança e adolescente, Orlandinho foi cruel em não aprimorar nenhum órgão em defesa deste público, como também desapropriou um coletivo muito importante de acolhimento e ajuda, chamado de coletivo “meninos e meninas em situação de rua”. Orlandinho desapropriou esses jovens sem dor nem piedade. O sorriso não coube no carnaval de São Bernardo dos sorrisos. O carnaval que fazia parte da nossa cultura foi vetado nesta cidade, restando o silêncio depressivo e um sorriso mais uma vez censurado.

No desfecho desta tragicomédia, sustentamos a esperança de que Orlandinho não se torne o amargo do riso, prestes a roubar a felicidade alheia. Seria como reviver os tempos medievais em que a igreja proibia expressamente a alegria, transformando São Bernardo dos Risos em um verdadeiro palco de "A Inquisição Cômica". Em palavras inspiradas por esse delírio fictício, recordamos o grande pensador risível, o filósofo anônimo da obra de humor universal: "Quem não ri em São Bernardo dos Risos, tem sérios problemas... ou é candidato a prefeito!"

Nessa órbita de sarcasmo, como se Umberto Eco tivesse escrito uma sequência chamada "O Nome do Riso", compreendemos que, na versão risível, a igreja medieval poderia ter censurado tratados filosóficos sobre gargalhadas, considerando-as uma heresia hilariante. Em nossa espirituosa ponderação, sorrir não seria apenas expressar alegria; seria um ato de desafio, uma galhofa que questionava as normas instituídas. Desejamos fervorosamente que, em São Bernardo dos Risos, o direito ao riso não seja tolhido, e que a cidade encontre motivos para gargalhar sem medo, desafiando qualquer tentativa de sufocar a felicidade e a liberdade de expressão. Afinal, em meio aos risos, quem precisa de normas?

Se algum desavisado perguntar o por que de São Bernardo dos Risos, recorrer aos músicos e poetas Toquinho/Vinícius de Moraes:


Há dias que eu não sei o que me passa

Eu abro o meu Neruda e apago o sol

Misturo poesia com cachaça

E acabo discutindo futebol


Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão


Acordo de manhã, pão com manteiga

E muito, muito sangue no jornal

Mas quando a criançada toda chega

Eu chego a achar Herodes natural


Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão


Discuto a loteca com a patroa

Quem sabe nosso dia vai chegar

E rio porque rico ri à toa

Também não custa nada imaginar

Mas não tem nada, não

Tenho o meu violão ....


Francisco Fagundes - Ativista Sindical da Apeoesp, Professor do Estado e da Prefeitura/SBC e militante partidário do Psol




Foto: Grupo Violetas da Aurora existe desde 2017 e conta com quatro palhaças — Foto: Alzyr/Divulgação

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