Reflexões após a leitura do livro autobiográfico de Aldo Santos: “Rumo à estação Catanduva”


Prof. Chico Gretter*


O livro escrito por meu amigo e companheiro de lutas, Aldo Santos, poderia ter sido lido em uma tarde apenas, pois não possui mais do que cinquenta páginas; é curto, mas é grosso. Pensei comigo, devo lê-lo em uma ou duas dessas reuniões chatas das quais participamos em nossa militância educacional ou política. Já li muita coisa nesses espaços de tempo que teriam sido insuportáveis não fossem os livros, os bons livros. Acontece que levei alguns meses entre o início da leitura e o seu término; lia duas ou três páginas e o livrinho voltava para o fundo de minha bolsa e por lá ficava por semanas, até quando, semanas depois, pegava-o novamente e lia mais duas ou três páginas. E assim foi até que, depois de meses, terminei a lenta e refletida leitura que não me levou à estação Finlândia, mas à estação Brasil.

O fato de ter demorado tanto em terminar a leitura do livro do biográfico do Aldo Santos deve ter uma razão psicanalítica, mas como não sou bom nisso, penso que uma das razões mais palpáveis é que as histórias contados pelo autor me transportou para a minha própria biografia de menino da roça, nascido na região onde a família deste amigo de luta foi morar quando vieram do Ceará: a região da cidade de Presidente Prudente onde fica o município de Rancharia, oeste do Estado de São Paulo; o “Pontal do Paranapanema”; região em que a família dos Gretter, cujo bisavô veio do norte da Itália no final do século XIX, se fixou no Brasil e se multiplicou, espalhando-se pelo Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país. Rancharia tem até uma rua com o nome desse meu bisavô, pai de meu avô Vitório, o austríaco Clemente Gretter. Meu primo distante, Hilário Gretter, escreveu até um livro sobre os Gretter!

Mas o caso não é este, o caso é que as histórias contadas pelo Aldo sobre sua vida e agruras passadas, são semelhantes às histórias de minha vida. E como próprio Aldo escreve em seu livro, mexer com o passado é mexer com “fantasmas” que nunca nos abandonam. E todos temos os nossos fantasmas. Por isso não foi fácil fazer uma leitura rápida de “Rumo à estação Catanduva”, ou melhor, à estação Brasil e às estações do trem de nossas vidas. Ah, a região retrata no início do livro é por onde passa ou passava a famosa Estrada de Ferro Sorocabana, que terminava em Presidente Prudente, passando por Rancharia.

O trem “Maria fumaça” que chegava, apitando e deixando para trás um rastro de fumaça cinza no ar está gravado na minha memória de infância, embora nunca tenha morado ali e nem mesmo em minha cidade natal, Martinópolis, que fica a uns trinta quilômetros indo em direção a Prudente. Nasci numa fazendo chamada “Laranja Doce”, que tinha também uma estação de trem da Sorocabana, que nem cheguei a conhecer, pois minha família, ou melhor, a família de meus tios-padrinhos, Luiz e Nica, mudaram-se para a região de Maringá/Cianorte, Noroeste do Paraná, onde foram trabalhar nas plantações de café. Todavia, os dez ou onze filhos do vô Vitório e da vó Rosina continuaram a família Gretter e hoje existem centenas de descendentes na região. Sempre volto lá para revê-los, matar a saudade, cantar música caipira e rever o túmulo de meus avós, pais, tios e de uma irmã falecida, a Lena.

Como estão vendo, a leitura do livro do Aldo me trouxe também as minhas memórias e o que ele narrou de sua saída meio forçada do interior para a capital paulista, a grande metrópole, o duro – e muitas vezes divertido - trabalho na roça, os perigos com veneno e animais peçonhentos, as doenças que eram curadas com chás e benzedeiras, as mortes prematuras, o sofrimento dos pobres explorados pelos patrões, as festas da igreja católica, as procissões, os velórios e enterros, os casamentos dos parentes, os nascimentos numerosos de bebês, mães que morriam no parto, assassinatos por brigas, as epidemias de sarampo, varíola, catapora, a tuberculose...tudo muito doído. Aldo foi uma dessas vítimas, mas sobreviveu! Eu também.

A narrativa do livro nos fez sentir na pele, na cabeça e no estômago o que é ser internado num hospital precário para tratamento de uma doença grave, a falta de recursos, o isolamento, os preconceitos, a disciplina repressiva, as dores advindas de injeções aplicadas por pessoas que não tinham a técnica necessária, pois muitos eram voluntários e autodidatas, como minha mãe-madrinha Nica, que assumia a função de enfermeiros, médicos e lavadores de defunto da região. Além das rezas, das benzedeiras, dos terços e das missas, quando aparecia um padre/missionário para reforçar a autoridade da Igreja Católica na região, com batizados e crismas em massa (as igrejas protestantes ou evangélicas, como se diz hoje, eram minoria e não tinha influência social até os anos 70). Estes foram os sentimentos e emoções que senti ao ler “Rumo à estação Catanduva”. Mas uma coisa em particular me chamou por demais minha atenção e me tocou profundamente.

Poderia ficar aqui durante horas e páginas comentando o livro do Aldo, mas quero citar apenas uma passagem que mais me marcou e resume tudo, as lutas, as dores e o sofrimento deste retirante e vítima do êxodo rural a que ele e seus irmãos foram atirados, assim como milhões de brasileiros. Ao voltar para casa, depois da internação, saudoso de seus entes queridos, Aldo escreve: “Esperava que as pessoas me recebessem alegres com saudades, mas não foi o que aconteceu. Não sei em que circunstância, a decisão estava tomada. Eu deveria imediatamente pegar o ônibus e voltar para São Paulo, ficar na pensão com o Valter, a que ele coordenava na Vila Gonçalves, em São Bernardo do Campo. No dia seguinte, mesmo com meus apenas 16 anos, me colocaram no ônibus sozinho, rumo a São Paulo...” (pág. 32). Como ele afirma mais à frente no livro, teria sido esta a decisão mais acertada, pois em São Paulo havia mais recursos para cuidar de sua enfermidade; não sei dizer se foi a decisão mais acertada, mas para mim foi a decisão mais triste e doída que, talvez, tiveram de tomar! Eu, que também fui migrante, passei por sofrimentos parecidos, menos este pelo qual meu amigo Aldo passou. Eu deixei a minha família porque quis quando vim estudar e morar em São Paulo; ele foi obrigado a fazê-lo. Muito triste!

Aldo, de qualquer forma, continuamos rumos à “Estação Catanduva”, ou melhor, rumo à “Estação Brasil” que sonhamos um encontrar: um país onde seu povo não tenha que passar por tantos sofrimentos e humilhações, um país não “acima de tudo”, mas um Brasil de irmãos, de iguais, onde se possa trabalhar, lutar e viver “sem medo de ser feliz”! Somos sobreviventes, em Sampa nos encontramos e a luta continua. As coisas não acontecem somente quando chegamos à estação final; há também muitas belezas durante a viagem, muitas outras estações pelo caminho. Obrigado por você e muitos outros/as terem trazido o Forró nordestino para meu Estado, para o Brasil e para o mundo. Um dia, esperançamos, o sertão vai virar mar e nós demos nossa pequena, mas fundamental contribuição. Xô fantasmas!


*Chico Gretter: professor por mais de 35 anos, filósofo, mestrado em História e Filosofia da Educação pela FEUSP, músico, Conselheiro Estadual da APEOESP e presidente da APROFFESP. Mas sobretudo sou “Apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso e vindo do interior” (Belchior).

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