ABONO E ALIENAÇÃO


Por: Prof. Chico Gretter*


Muitos professores da rede estadual não conseguem perceber que o abono pago pelo governo não é incorporado aos salários e não incide para benefício da aposentadoria...


O fenômeno da ALIENAÇÃO, analisado desde Platão pela Filosofia, é algo realmente complexo e terrível! O que Eva, ao ser perguntada por Deus por que teria comido o fruto da "árvore da ciência do bem e do mal" (Gên. 2, 17), fruto proibido por Javé ao primeiro casal (mito), respondeu ao Criador? Ela disse: "A serpente que me enganou"! Adão também, ao ser inquerido por Deus, deu a desculpa que teria sido enganado por Eva.

De um lado o engano, do outro a irresponsabilidade ao atribuir ao demônio ou à mulher o erro ou pecado, já que ambos tinham sido orientados por Deus a NÃO comer do fruto da árvore que se encontrava no centro do paraíso terrestre! Interessante, a árvore do fruto proibido foi colocada pelo Criador bem no centro do Jardim do Éden. Por quê? E os seres humanos se enganam, mesmo sabendo dos enganos, e dificilmente assumem as suas escolhas erradas, segundo a proibição de imposta por Deus. Assim caminha a humanidade e todos nós, filhos do primeiro casal humano, pagamos igualmente o pato da culpa original, segundo o judaísmo e o cristianismo: trabalhar, procriar, sofrer e morrer. Não é fácil.


Mas por que relembrei essa narrativa do Livro do Gênesis, que faz parte da Torá judaica e da Bíblia cristã? O que isso tem a ver com a frase colocada em destaque? A lerem o depoimento a seguir, vocês irão entender.


Ontem, conversando no WhatsApp com uma ex-aluna do Curso de Filosofia da então UNIBAN, ela me contava feliz que o abono havia sido aprovado e que lamentava porque eu não vou recebê-lo, já que sou aposentado; porém ela me disse que merecia mais do que eu, pois continuava trabalhando e plena pandemia enquanto eu descansava em casa. Sério, ela me disse isso! Tentei argumentar falando da necessidade de uma política salarial justa para todos, pois estamos há anos sem reajuste, que os aposentados trabalharam a vida inteira, contribuíram na fonte e hoje são taxados de novo pelo governo estadual, que fez aprovar na ALESP uma lei que confisca nossos vencimentos, etc. Não houve jeito; ela me disse que iria comemorar e que "sentia muito", pois não podia fazer nada.


Esse individualismo e até mesmo egoísmo dessa ex-aluna revela sua inconsciência, sua alienação diante do mundo do trabalho e dos trabalhadores. E ela, como professora e, ainda mais, professora de Filosofia, não percebe o quanto está acorrentada em sua caverna, vendo apenas sombras projetadas na parede de sua mente amortecida pela ideologia dominante. O fenômeno da alienação é terrível e revoltante. Quanto aos governos que nos enganam e exploram, tanto mais o farão quanto mais alienados existirem. Os senhores que escravizam continuarão existindo enquanto houver aqueles que aceitam a escravidão.


Prof. Chico Gretter, aposentado, professor de Filosofia e História há 35 anos, presidente da APROFFESP.


03/12/2021 -

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