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A educação e o mundo do trabalho


Prof. Chico Gretter***

 

“A LDB (Lei nº 9.394, de 20-12-96, Seção IV, Artigos 35 e 36) adotou a terminologia “Ensino Médio”, dedicando uma belíssima página às suas nobre finalidades e diretrizes. Mas quando verificamos a porcentagem das verbas da educação reservadas a esse grau de ensino, logo somos levados a duvidas da efetiva realização de seus objetivos garantidos pela lei. E mesmo aquela antiga dicotomia entre formação geral e especialização permanece; o dito ensino médio continua padecendo de falta de identidade, que é o reflexo das contradições sócio-econômico-culturais da sociedade brasileira. Na prática sempre houve um equívoco em contrapor a formação geral à especialização e à profissionalização. “Esse equívoco decorre de dois vícios do nosso sistema educacional: um é o divórcio que há entre escola e sociedade, o que ocasiona um alheamento entre uma formação academicista e as reais necessidades sociais; outra é a relação distorcida entre ambas, fazendo com que a educação seja guiada por critérios utilitaristas e imediatistas” (Proposta Curricular de Filosofia, SECENP, 1992, p. 18). Superar a mencionada dicotomia não depende, pois, apenas da legislação e dos discursos oficiais ou dos críticos do sistema. A transformação das relações entre educação, sociedade, o mundo do trabalho e a cultura simbólica exigem mudanças estruturais no campo da política, dos modelos de desenvolvimento adotados e mesmo da mentalidade da população em geral, em particular, dos grupos dirigentes. Ocorre que o próprio capitalismo, dadas as transformações que vêm ocorrendo no mundo do trabalho em nível internacional e que apontam para uma sociedade “pós-industrial”, necessita cada vez mais de um trabalhador qualificado, “inteligente”. Não no sentido profissionalizante, mas que detenha os requisitos básicos de uma formação que o capacite para adentrar-se não apenas no mundo do trabalho, mas também no universo das relações sócio-políticas e culturais, isto no contexto de uma sociedade cada vez mais globalizada em todas as suas esferas. Ora, nas tarefas rotineiras as máquinas estão substituindo a mão-de-obra humana, basta apertar botões. Mas quem produz essas máquinas, quem as programa, quem está dominando as tecnologias avançadas? Voltemos então à pergunta inicial: que formação oferecer aos jovens de hoje afim de que estejam preparados para enfrentar esse mundo? E se todos pudessem ser bem formados, haveria emprego ou ocupação para todos? Continuará o trabalho uma categoria central num mundo pós-industrial? Aqui já não estamos mais preocupados com a continuação de um “exército industrial de reserva” (Marx, Engels), mas falamos do “desemprego estrutural” que avança a passos largos nos países avançados. É esse o futuro que almejamos? Será que estamos preocupados com a formação de futuros desocupados? Adam Schaff, em “A Sociedade Informática” (l991), aborda essas questões, chama a atenção para os graves problemas que já estão ocorrendo e que tendem a se agravar e aponta algumas soluções possíveis, inclusive colocando a educação e a cultura como fatores fundamentais para o equacionamento da problemática. Isso irá depender de decisões políticas globais, o que nos leva a ser, senão pessimistas, pelo menos não tão otimistas quanto ao futuro.” (GRETER, F. P. Dissertação de mestrado. FEUSP, 1997, p. 41-42) Chico Gretter: professor de História e Filosofia das redes pública e particular durante 35 anos, graduado e licenciado em Filosofia, mestrado em Filosofia e História da Educação, vice-presidente da APROFFESP.

 

 
 
 

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